Preço que varia com a demanda é permitido, se informado antes da compra. Mudar o valor no pagamento ou cobrar mais pelo seu perfil, não.
Por André Luiz Guimarães, editor | Revisão jurídica: Dra. Mariana Rodrigues Valle Guimarães, OAB/RJ 205.702
Publicado em 14 de outubro de 2026, às 22h27
Resposta curta: o preço dinâmico, que sobe e desce conforme a procura, não é proibido no Brasil. Mas o consumidor precisa saber o valor final antes de fechar a compra, e o preço apresentado vale como oferta. Aumentar o valor na tela de pagamento, esconder taxas até o último passo ou cobrar mais de alguém por causa de onde mora, do celular que usa ou do histórico de compras pode ser prática abusiva.
Você escolhe o voo, confere o preço, preenche os dados e, na tela de pagamento, o valor está R$ 80 mais alto. Em outro dia, a corrida de aplicativo que custava R$ 35 aparece por quase o triplo. Uma coisa é o preço variar. Outra é ele mudar sem aviso ou de forma desigual.
Por que isso importa
Aplicativos de transporte, passagens aéreas, hotéis, ingressos e delivery usam algoritmos que ajustam preços em tempo real. A lógica de oferta e procura é legítima. O problema começa quando a falta de transparência impede o consumidor de comparar, decidir e saber se está pagando o mesmo que os outros.
O que diz a lei
- A oferta vincula: toda informação de preço suficientemente precisa obriga o fornecedor e integra o contrato (art. 30 do Código de Defesa do Consumidor, o CDC). Se o fornecedor se recusar a cumprir a oferta, o consumidor pode exigir o cumprimento, aceitar um produto equivalente ou cancelar com devolução do que pagou (art. 35 do CDC).
- Informação clara: o consumidor tem direito a informação adequada e clara sobre preço e características do produto ou serviço (art. 6º, III, e art. 31 do CDC).
- Práticas abusivas: é proibido exigir vantagem manifestamente excessiva e elevar preços sem justa causa (art. 39, V e X, do CDC).
- Mudança unilateral: é nula a cláusula que permita ao fornecedor variar o preço de maneira unilateral (art. 51, X, do CDC).
- Comércio eletrônico: sites e aplicativos devem informar o preço com todas as despesas incluídas, como taxas de entrega e de serviço, e apresentar um resumo do contrato antes da compra (arts. 2º e 4º do Decreto 7.962/2013).
- Preço diferente por forma de pagamento: a lei permite cobrar valores diferentes conforme o prazo ou o meio de pagamento, como desconto no Pix, desde que isso seja informado (Lei 13.455/2017).
- Dados pessoais: a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) proíbe o uso de dados para fins discriminatórios ilícitos ou abusivos (art. 6º, IX) e garante o direito de pedir revisão de decisões tomadas só por sistema automatizado (art. 20).
Quando o preço dinâmico é aceitável
- o valor muda por causa de demanda, horário, antecedência ou disponibilidade;
- o preço final aparece antes de você confirmar;
- a regra vale igualmente para todos os consumidores na mesma situação;
- a empresa explica, ao menos de forma geral, como o preço é calculado.
Quando pode ser abusivo
- Preço que muda no pagamento: o valor anunciado sobe depois que você já escolheu e preencheu os dados.
- Taxas escondidas: taxas de serviço, conveniência ou embarque aparecem só no último passo.
- Discriminação por perfil: o mesmo produto, no mesmo momento, custa mais para quem mora em certa cidade, usa determinado celular ou já demonstrou interesse.
- Alta desproporcional em emergências: aumentos extremos em situações de crise ou grande necessidade, sem justificativa técnica clara.
- Contagem regressiva falsa: avisos como “últimas vagas” ou “preço sobe em 5 minutos” sem correspondência com a realidade.
O que os órgãos de defesa do consumidor já fizeram
Em 2018, o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), do Ministério da Justiça, multou a Decolar em R$ 7,5 milhões por cobrar preços diferentes pelo mesmo hotel conforme a localização do cliente. Em 2020, o Procon-SP aplicou nova multa à empresa, de cerca de R$ 1,2 milhão, por prática semelhante, entendendo que havia discriminação em razão do perfil do consumidor. A Decolar negou irregularidades e anunciou recurso.
Em dezembro de 2025, o Procon Paulistano, da Prefeitura de São Paulo, notificou Uber e 99 a explicarem altas de preço relatadas por usuários, como uma corrida que teria passado de R$ 35 para R$ 95. As empresas afirmaram que o preço reflete a relação entre procura e motoristas disponíveis e é exibido antes de o passageiro confirmar a corrida.
Passo a passo
- Antes de pagar, confira se o valor final é o mesmo que foi anunciado.
- Tire prints da oferta inicial e da tela de pagamento, com data e horário.
- Se o preço mudou, exija o valor anunciado pelo SAC ou pelo chat do aplicativo e anote o protocolo.
- Sem solução, registre reclamação no Consumidor.gov.br ou no Procon.
- Se houve cobrança indevida, você pode pedir a devolução do valor pago a mais, em dobro, com correção e juros (art. 42, parágrafo único, do CDC), inclusive no Juizado Especial Cível.
Para entender os termos
- Preço dinâmico: preço que varia automaticamente conforme demanda, horário ou outros fatores.
- Discriminação de preços: cobrança de valores diferentes de consumidores diferentes pelo mesmo produto, no mesmo momento.
- Geopricing: variação de preço de acordo com a localização do consumidor.
- Oferta: informação sobre produto e preço que obriga o fornecedor a cumpri-la.
- Prática abusiva: conduta do fornecedor proibida pelo CDC por prejudicar o consumidor.
- Algoritmo: conjunto de regras que um programa segue para calcular ou decidir algo.
Guarde isto: o preço pode variar, mas não pode mudar no meio da compra nem ser maior só por causa de quem você é. O valor anunciado vale como oferta. Guarde prints e exija o cumprimento.
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica para o seu caso.
Fontes
- Código de Defesa do Consumidor — arts. 6º, 30, 31, 35, 39, 42 e 51
- Decreto 7.962/2013 — comércio eletrônico
- Lei 13.455/2017 — preços por forma de pagamento
- Lei 13.709/2018 (LGPD) — arts. 6º e 20
- Tecnoblog — Procon-SP multa Decolar em R$ 1,2 milhão por prática abusiva de preços
- AMDJus — Prefeitura de São Paulo notifica Uber e 99 por preços elevados













