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Por que a democracia vale a pena, e o que espera quem vencer hoje

Num país dividido ao meio, o voto permite discordar sem romper; e o próximo presidente terá desafios que nenhum lado resolve sozinho.

Por André L. Guimarães

Publicado em 25 de outubro de 2026, às 17h30| Atualizado em 25 de outubro de 2026

Em alguma fila de escola pública, hoje cedo, uma senhora tirou o documento da bolsa com o cuidado de quem repete o gesto há décadas. Atrás dela, um rapaz de 16 anos votava pela primeira vez, sem obrigação, porque quis. Os dois podem ter escolhido candidatos opostos, e o voto de cada um valeu exatamente o mesmo.

Esse gesto simples nem sempre foi possível. Entre 1960 e 1989, os brasileiros passaram 29 anos sem eleger o presidente pelo voto direto. Quem não sabia ler só conquistou o direito de votar em 1985.

Hoje, das 8h às 17h, milhões de pessoas voltam às urnas numa das disputas mais apertadas da história recente. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) teve 47,03% dos votos válidos, e Lula (PT), 45,16%. Antes de falar de quem vai governar, vale lembrar por que a forma de escolher importa tanto.

Uma razão, e não só um sentimento

Defender a democracia não precisa ser um ato de fé. Existem argumentos práticos, que valem para qualquer lado do espectro político.

O primeiro é a correção de erros. Todo governo erra, de qualquer partido. Na democracia, o eleitor pode trocar quem governa a cada quatro anos, sem violência. O filósofo Karl Popper resumia assim o essencial desse sistema: poder afastar os governantes sem derramamento de sangue.

O segundo é a informação. Com imprensa livre, oposição atuante e eleições periódicas, os problemas aparecem cedo e viram cobrança. O economista Amartya Sen, Nobel de 1998, observou que nenhuma grande fome ocorreu em uma democracia em funcionamento, com imprensa livre.

O terceiro é a proteção de quem perde. A regra que garante o seu direito de votar e de criticar é a mesma que garante o do seu adversário. Quem está no poder hoje pode ser minoria amanhã, e vai querer as mesmas garantias.

A Constituição transforma essas ideias em regras. Todo poder emana do povo (art. 1º, parágrafo único, da CF), e o voto é direto, secreto e com valor igual para todos (art. 14 da CF). Essas garantias são cláusulas pétreas: nem uma emenda constitucional pode aboli-las (art. 60, §4º, II, da CF).

Os desafios de quem vencer

Seja quem for o eleito, a agenda que chega ao Palácio do Planalto em 5 de janeiro de 2027 já está posta. Cinco desafios se destacam, e nenhum depende só do presidente.

1. Governar um país dividido

Pesquisa Datafolha feita em 13 e 14 de outubro mostra que 78% dos brasileiros veem o país politicamente polarizado. Apenas 17% dizem que o Brasil vive em harmonia entre pessoas com ideias diferentes.

O próximo presidente vai governar para quase metade do eleitorado que escolheu o adversário. Vai também precisar de maioria em um Congresso que não escolheu. Baixar a temperatura sem abrir mão das próprias propostas será uma tarefa diária.

2. Lidar com a desconfiança na Justiça

Em março de 2026, o Datafolha registrou que 43% dos brasileiros não confiam no Supremo Tribunal Federal. É o maior índice desde o início da série, em 2012. Em abril, 75% disseram que os ministros têm poder demais.

Na mesma pesquisa de abril, porém, 71% afirmaram que o STF é essencial para a democracia. A crítica ao tribunal convive, portanto, com o reconhecimento de seu papel.

O presidente não comanda o Judiciário, que é independente (art. 2º da CF). Mas é ele quem indica os ministros do STF, que precisam ser aprovados pelo Senado (art. 101, parágrafo único, da CF). Nos próximos quatro anos, aposentadorias compulsórias devem abrir vagas no tribunal.

3. Atravessar uma economia mundial instável

Em outubro, o Fundo Monetário Internacional reduziu de 2,4% para 2,2% a previsão de crescimento do Brasil em 2026. Para 2027, a projeção caiu para 1,9%. O FMI citou juros altos e a incerteza externa, com o conflito no Golfo Pérsico pressionando o preço do petróleo.

No comércio, a relação com os Estados Unidos segue tensa. Em julho de 2026, o governo americano passou a cobrar tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. Carne, café, suco de laranja, peças de avião, petróleo e gás ficaram de fora.

Os EUA alegaram práticas brasileiras consideradas desfavoráveis, como regras do Pix, do etanol e das plataformas digitais. As vendas brasileiras para o mercado americano caíram 13% no primeiro semestre. Negociar, buscar novos mercados e proteger empregos estará na mesa desde o primeiro dia.

4. Reduzir a desigualdade

Os dados do IBGE trazem duas notícias ao mesmo tempo. Em 2025, a renda média por pessoa bateu recorde, chegando a R$ 2.264 por mês. Mas a desigualdade voltou a subir: o índice de Gini passou de 0,504, o menor da série, para 0,511.

Os 10% mais ricos recebem, em média, 13,8 vezes mais do que os 40% mais pobres. Para quem está na base, crescimento que não chega à mesa de casa não parece crescimento. Impostos, salário mínimo, jornada de trabalho e programas sociais estão no centro desse debate.

5. Enfrentar um crime que já não respeita fronteiras

Estudo do Instituto Igarapé, divulgado em julho de 2026, aponta o PCC e o Comando Vermelho como ameaças de alcance global. O PCC teria de 30 mil a 40 mil integrantes, com presença na América do Sul e conexões na Europa e na África Ocidental.

Segundo o estudo, a facção usa portos como Santos e Paranaguá para enviar cocaína a Antuérpia, Roterdã, Hamburgo, Le Havre e Valência. Também se infiltra na economia formal, inclusive no setor de combustíveis.

Combater esse tipo de crime exige cooperação entre União, estados e outros países, além de rastrear o dinheiro. Os candidatos têm propostas diferentes para isso, e várias delas dependem do Congresso.

O que você encontra neste especial

São 10 matérias que comparam as propostas dos dois candidatos com a lei:

  • Seu bolso: isenção do IR até R$ 5 mil (01) e reforma tributária (02)
  • Seu trabalho: fim da escala 6×1 (03)
  • Segurança pública: maioridade penal (04), progressão de pena (05), facções e terrorismo (06), legítima defesa e armas (07) e medida protetiva (08)
  • O tamanho do Estado: privatizações e ministérios (09)
  • Meio ambiente: licenciamento ambiental (10)

Todas seguem os mesmos critérios. Os candidatos aparecem em ordem alfabética, com o mesmo espaço e a mesma forma de atribuição. Não dizemos se uma proposta é boa ou ruim. Mostramos o que a lei permite, o que precisaria mudar e o que os tribunais já decidiram.

Depois de hoje

Amanhã, a senhora e o rapaz da fila voltam à rotina. Um deles talvez acorde frustrado com o resultado. A democracia pede a ele algo difícil: aceitar a escolha da maioria sem desistir de discordar.

Ao vencedor, pede algo igualmente difícil: lembrar que governa também para quem não votou nele. Se houver suspeita de irregularidade, a Justiça Eleitoral tem caminhos próprios, com prazos e provas. Divergências se resolvem por regras, e não pela força.

O calendário segue com a diplomação dos eleitos até 19 de dezembro [VERIFICAR: data-limite no calendário eleitoral do TSE]. A posse será em 5 de janeiro de 2027 (art. 82 da CF, com redação da Emenda Constitucional 111/2021).

A Revista Sapiências não diz em quem votar. Nosso trabalho é oferecer informação para que você decida e, a partir de amanhã, acompanhe. A democracia não se esgota no dia da eleição: ela se fortalece quando os cidadãos participam todos os dias.

Guarde isto: seu voto é secreto e vale o mesmo que o de qualquer outro eleitor. Quem vencer terá desafios que dependem do Congresso, do Judiciário e da participação de todos.

Fontes

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