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Antes do voto, a vida: os direitos que não podem esperar

Editorial | Por André L. Guimarães – Revista Sapiências — 18 de outubro de 2026

Na semana que antecede o segundo turno, a Revista Sapiências dedica a edição de domingo aos problemas que seguem na vida dos brasileiros, seja quem for o vencedor nas urnas.

Falta uma semana para o Brasil voltar às urnas. No próximo domingo, 25 de outubro, milhões de eleitores vão escolher os rumos políticos do país. Enquanto os candidatos disputam votos, porém, a vida não espera pelo resultado.

A violência que muda a rotina das famílias. A consulta que nunca chega. O dinheiro que acaba antes do mês. O medo de perder o emprego. A aposentadoria que não dá conta do remédio, do aluguel e da comida.

Não é por acaso que segurança, saúde e economia lideram as preocupações dos brasileiros.

Para a Revista Sapiências, a eleição não pode ser vista apenas como uma disputa de poder. É também o momento de perguntar se os direitos prometidos pela Constituição chegam, de fato, a quem precisa deles, e o que as instituições têm feito para que cheguem.

Direitos não podem existir apenas no papel.

A segurança pública é dever do Estado e direito de todos. A saúde não é favor. A proteção do consumidor precisa alcançar quem enfrenta cobranças abusivas e dívidas que não param de crescer. A liberdade de escolha política deve ser respeitada também dentro das empresas. E a Previdência precisa ser discutida como parte essencial da proteção de quem trabalhou a vida inteira e envelheceu.

Sem uma Justiça que funcione, o direito não sai do papel

Há um elo que costuma ficar fora dos palanques. Quando o direito é negado, é ao Poder Judiciário que o cidadão recorre. E essa porta está cada vez mais estreita.

Os números são do próprio sistema. O Judiciário terminou 2025 com 75,5 milhões de processos à espera de solução e recebeu, no mesmo ano, 40,9 milhões de ações novas, o maior volume desde 2009. Um processo pendente está, em média, há três anos e sete meses tramitando. Para quem aguarda uma cirurgia, uma pensão ou uma indenização, esse tempo pesa como uma negativa.

A confiança acompanha a demora. Em setembro, a parcela dos que não confiam no Supremo Tribunal Federal chegou a 48% no Datafolha. Na Quaest, foram 56%, índice mais alto do que o registrado para a Presidência e para o Congresso. Desde que o Datafolha começou a medir, em 2012, a mais alta Corte do país nunca foi vista com tanta desconfiança.

É preciso dizer com clareza: o Brasil precisa de uma reforma profunda do Poder Judiciário. Não para enfraquecê-lo, nem para colocá-lo a serviço de quem vencer a eleição. A reforma é necessária para devolver à Justiça a capacidade de cumprir a função que a Constituição lhe dá: garantir os direitos de cada cidadão e proteger o Estado Democrático de Direito, inclusive contra os excessos dos outros Poderes e contra os seus próprios.

Essa reforma precisa enfrentar problemas que se arrastam há décadas:

  • a demora que transforma direitos em promessas;
  • a falta de transparência sobre custos, remunerações e critérios de decisão, num sistema que gastou R$ 164,6 bilhões em 2025;
  • a ausência de regras claras e efetivas de conduta e de impedimento para magistrados;
  • o peso das decisões individuais em temas de grande impacto para o país;
  • um acesso à Justiça que ainda depende do CEP e da renda de quem bate à porta.

O desenho dessa reforma é tema de debate legítimo e deve passar pelo Congresso, com participação da sociedade, da magistratura, da advocacia e do Ministério Público. Adiar mais uma vez essa discussão, porém, tem um custo, e quem o paga é o cidadão que espera. Uma Justiça independente só se sustenta com a confiança de quem ela serve.

Nesta edição

Reunimos cinco reportagens que aproximam esses grandes debates do dia a dia.

Em Justiça e Prisão, examinamos o que o cidadão pode exigir das instituições de segurança pública e quais limites o combate ao crime precisa respeitar.

Em Saúde e Direitos, mostramos os caminhos para quem espera por consultas, exames e cirurgias, quando a garantia constitucional de atendimento vira angústia concreta.

Em Você e seus Direitos, olhamos para o orçamento doméstico e para os instrumentos que protegem o consumidor pressionado por preços, contas e dívidas.

Em Trabalho e Direitos, tratamos do assédio eleitoral, prática que ameaça a liberdade de voto e põe em discussão os limites do poder do empregador.

E, em Sua Aposentadoria, discutimos um desafio maior que qualquer mandato: como garantir renda e proteção a uma população que envelhece.

Não pretendemos dizer ao leitor em quem votar. Nosso compromisso é oferecer informação para que cada cidadão conheça seus direitos, saiba o que pode exigir do poder público e cobre respostas de quem for eleito.

Democracia não se resume a eleições. Ela depende de instituições que funcionem, de serviços públicos que atendam, de respeito às liberdades individuais e de proteção real aos mais vulneráveis. E depende de uma Justiça em que o cidadão possa confiar.

Os governos mudam. As necessidades das pessoas ficam.

Por isso, neste domingo, propomos olhar além das campanhas, dos discursos e das pesquisas. Antes de escolher quem vai governar, é preciso saber quais direitos qualquer governo, e qualquer tribunal, tem o dever de respeitar.

O voto decide uma eleição. A cidadania se exerce todos os dias.

Revista Sapiências Conhecimento, direitos e cidadania.

Fontes

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