Para Entender Rapidamente Por determinação do CNJ, a PF fez correição extraordinária no gabinete do desembargador Newton Ramos (TRF-1), citado em mensagens do celular do banqueiro Daniel Vorcaro como integrante da chamada “Turma do KN” — referência, segundo os investigadores, ao ministro do STF Kassio Nunes Marques. As mensagens mencionam um contrato de R$ 427 milhões e pedidos de hospedagem atribuídos a Kassio. Tanto Newton Ramos quanto Kassio Nunes Marques negam qualquer irregularidade. O procedimento tem prazo de 60 dias, prorrogável por mais 60, ao fim dos quais o corregedor decidirá se há elementos para abrir processo disciplinar.
Por determinação do Conselho Nacional de Justiça, a Polícia Federal realizou, na tarde desta quinta-feira (24/9), uma operação no gabinete do desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região Newton Ramos. O magistrado passou a ser citado em conversas que, segundo os investigadores, indicariam influência sua junto ao ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques, na interlocução com o banqueiro Daniel Vorcaro. Os investigadores chegaram ao gabinete às 15h52.
A ação é desdobramento da apuração aberta pela Corregedoria do CNJ sobre processos do desembargador ligados aos precatórios do setor sucroalcooleiro — a mesma matéria que, um dia antes, havia levado o corregedor nacional de Justiça a determinar o cancelamento de R$ 4,7 bilhões em precatórios ligados ao caso. Em termos técnicos, trata-se de uma correição extraordinária, procedimento de fiscalização e auditoria determinado pelo corregedor nacional Benedito Gonçalves. Serão verificados os processos armazenados nos computadores e outros documentos do gabinete.
O contrato de R$ 427 milhões e a “Turma do KN”
O Metrópoles revelou, na segunda-feira (21/9), que a PF encontrou um contrato de advocacia no valor de R$ 427 milhões associado à chamada “Turma do KN”. O valor seria pago em caso de êxito em ações de interesse de Daniel Vorcaro nos tribunais superiores, que poderiam destravar R$ 8,5 bilhões em precatórios. Segundo as mensagens analisadas pela PF, a sigla “KN” faria referência ao ministro Kassio Nunes Marques.
O contrato e a troca de mensagens constam do HD encaminhado pela Polícia Federal ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, em julho. Na última semana, os ministros Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes exigiram acesso à íntegra desse material, diante de suspeitas de que Mendonça teria concentrado a análise em menções ao ministro Alexandre de Moraes, deixando de lado referências a outros integrantes da Corte. Mendonça nega ter direcionado a investigação.
As mensagens também mostram que assessores de Vorcaro se referiam como “Turma do KN” ao desembargador Newton Ramos e à mulher dele, a advogada Camilla Ramos. De acordo com as conversas, Newton repassava a Vorcaro pedidos atribuídos a Kassio Nunes — como uma solicitação de hospedagem no Hotel Fasano —, além de atualizá-lo sobre o andamento das discussões relacionadas aos precatórios.
A hospedagem durante o Carnaval de 2025
Mensagens interceptadas pela PF no celular de Daniel Vorcaro indicam que o banqueiro articulou a hospedagem de um “ministro” identificado como “KN” durante o Carnaval de 2025. Para os investigadores, o beneficiário seria o próprio Kassio Nunes Marques.
Conforme os diálogos apontam, a mansão escolhida para acomodar o ministro pertencia ao ator Márcio Garcia — imóvel avaliado em R$ 250 milhões, com sete suítes, 6 mil metros quadrados e vista para o mar, nas proximidades da Pedra da Gávea. A reserva teria custado cerca de R$ 1,45 milhão.
Prazo de até 120 dias para a apuração
Segundo apurado, o procedimento sobre Newton Ramos tem prazo de 60 dias, prorrogável por mais 60. Dentro desse período, o corregedor vai avaliar se existem elementos para a abertura de um processo administrativo disciplinar — que, se for o caso, só poderá ser instaurado pelo próprio Plenário do CNJ, e não pelo corregedor isoladamente.
O que dizem os citados
Em nota, o gabinete do desembargador Newton Ramos informou que “a Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça realizou uma correição extraordinária em seu gabinete com o objetivo de levantar informações em processos que envolvem o setor sucroalcooleiro”. “O magistrado ressalta que permanece no pleno exercício de sua jurisdição, atuando e julgando normalmente os demais processos sob sua responsabilidade”, continua o texto. “O desembargador confia no trabalho desempenhado pela Corregedoria do CNJ, o qual considera natural e regular. Por fim, reafirma que está à inteira disposição do órgão para prestar todos os esclarecimentos necessários e sanar eventuais dúvidas sobre os casos em análise”, conclui o comunicado.
Já o ministro Kassio Nunes Marques, em nota própria, afirmou nunca ter votado a favor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master, nunca ter trocado mensagens com o banqueiro, nem pedido qualquer coisa a ele. O ministro também reafirmou nunca ter autorizado ninguém a falar em seu nome.
Para entender os termos
- Correição extraordinária: procedimento de fiscalização e auditoria realizado pela Corregedoria de um tribunal ou do CNJ, fora do calendário normal de inspeções, geralmente motivado por suspeita concreta de irregularidade.
- Processo Administrativo Disciplinar (PAD): procedimento formal que pode resultar em sanções a um magistrado, desde advertência até a perda do cargo, dependendo da gravidade apurada — no caso de desembargadores, só pode ser aberto pelo Plenário do CNJ.
- Corregedoria Nacional de Justiça: órgão do CNJ responsável por fiscalizar a atuação de magistrados e tribunais em todo o país.
- Precatório bloqueado: modalidade de precatório mantido em conta judicial antes do trânsito em julgado da fase de execução, já reconhecida pelo CNJ como sem amparo legal — tema que já tratamos em matéria anterior sobre o cancelamento de R$ 4,7 bilhões em precatórios ligados a este mesmo caso.
Por que isso importa
O caso ainda está em fase de apuração, e tanto o desembargador Newton Ramos quanto o ministro Kassio Nunes Marques negam qualquer irregularidade — é essa a distância que separa, até este momento, o conteúdo de mensagens encontradas no celular de um investigado e uma conclusão sobre a conduta das pessoas nelas mencionadas. O próprio desenho do procedimento já reflete essa cautela institucional: mesmo diante de indícios que o CNJ considerou suficientes para autorizar uma operação da Polícia Federal, a abertura de um processo disciplinar contra um desembargador não fica na mão de um único corregedor — depende de decisão colegiada do Plenário inteiro do Conselho.
Vale registrar, ainda, a tensão que já se desenha dentro do próprio STF sobre a condução dessa investigação: a exigência de outros ministros de acesso integral ao material apreendido, diante da suspeita de que a análise poderia estar concentrada seletivamente em um único colega, revela que a apuração do caso Master já não é apenas sobre supostas irregularidades externas ao Judiciário — é também, em alguma medida, sobre como o próprio Supremo consegue investigar a si mesmo com credibilidade suficiente para que o resultado, seja qual for, tenha aceitação pública.
O conteúdo tem finalidade informativa e não substitui orientação jurídica individualizada, porque situações semelhantes podem produzir respostas diferentes conforme os fatos e documentos do caso.
Da redação, postado em 24 de setembro de 2026, às 10h38. Matéria revisado pelo Editor André Luiz Guimarães, revisão jurídica da Dra. Mariana Rodrigues Valle Guimarães, inscrita na OAB/RJ 205702.
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