O ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que o governo federal estima o salário mínimo em R$ 1.741 para 2027. O número vai constar no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), que deve chegar ao Congresso Nacional até o fim deste mês — mas ainda é uma projeção, não um valor fechado. O salário mínimo definitivo só sai em dezembro deste ano, quando o INPC de novembro for divulgado.
Vale notar que essa estimativa já mudou uma vez neste ano: na Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027, apresentada em abril, o governo havia calculado R$ 1.717. O novo número, R$ 1.741, veio depois de uma reunião de Durigan com o presidente Lula e os demais ministros da área econômica para fechar a proposta orçamentária que seguirá ao Congresso.
Um orçamento pensado para gastar menos do que arrecada
Segundo o ministro, o projeto de 2027 prevê superávit — ou seja, o governo pretende gastar menos do que arrecada no ano que vem. Nesse contexto, Durigan fez questão de afastar qualquer hipótese de desindexar o salário mínimo dos benefícios sociais: aposentadorias e outros benefícios previdenciários que acompanham o mínimo continuarão reajustados junto com ele.
“Aproveito para mencionar que também o salário mínimo, com os reajustes previstos em lei, chega a R$ 1.741 no ano que vem. Ele, necessariamente, cumprindo a legislação brasileira, dentro do nosso espírito de privilegiar a população mais carente, vai também para a Previdência e para os benefícios sociais que têm a indexação do salário mínimo”, declarou o ministro.
Atualmente, o salário mínimo está em R$ 1.621, valor que passou a vigorar neste ano após reajuste de 6,79%.
Noventa anos de salário mínimo, e a mesma pergunta de sempre
O salário mínimo brasileiro não é recente: foi instituído em janeiro de 1936, no governo Getúlio Vargas, pela Lei 185 — e completou 90 anos de existência logo no início deste ano, data que o próprio governo Lula chegou a comemorar em cerimônia oficial.
Nove décadas depois, porém, o debate sobre o valor continua girando em torno da mesma questão: o quanto esse número, por maior que pareça no anúncio, efetivamente cobre as necessidades de quem vive dele.
Uma conta que não fecha: R$ 1.621 contra R$ 7.425,99
É aqui que a estimativa anunciada pelo governo esbarra num cálculo bem mais desconfortável. O próprio Dieese calcula que o salário mínimo mensal necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 7.425,99 — o equivalente a 4,58 vezes o valor atual de R$ 1.621.
Esse cálculo não é arbitrário: ele segue a própria determinação constitucional, que estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para cobrir as despesas de um trabalhador e de sua família com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência — item por item, exatamente como está escrito na Constituição.
Para entender os termos
- PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual): documento enviado pelo governo ao Congresso todo ano, detalhando quanto pretende arrecadar e gastar no exercício seguinte — é nele que a estimativa do salário mínimo de 2027 será formalizada.
- PLDO (Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias): peça anterior ao PLOA, que estabelece as metas e parâmetros gerais que orientarão o orçamento do ano seguinte, incluindo projeções como a do salário mínimo.
- Superávit primário: resultado em que o governo arrecada mais do que gasta num determinado período, sem contar juros da dívida pública.
- Indexação: mecanismo pelo qual um valor (como aposentadorias e benefícios sociais) é automaticamente reajustado junto com outro índice de referência — nesse caso, o próprio salário mínimo.
- INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor): índice que mede a inflação para famílias de baixa renda, usado como base para calcular o reajuste anual do salário mínimo.
Por que isso importa
Um número como R$ 1.741 é fácil de anunciar como conquista, especialmente quando comparado ao valor atual de R$ 1.621 — parece avanço, e tecnicamente é. Mas esse contraste só existe porque a régua de comparação escolhida é o próprio salário mínimo do ano anterior, não o que a Constituição efetivamente exige que ele cubra. Quando a régua muda para o cálculo do Dieese — o valor necessário para uma família de quatro pessoas viver com alimentação, moradia, saúde, educação e os demais itens previstos constitucionalmente —, a distância salta para quase cinco vezes o valor anunciado. Entender essa diferença é o que evita comemorar um reajuste percentual como se ele resolvesse, sozinho, o problema estrutural que a própria Constituição já reconhece há décadas: o de que o salário mínimo brasileiro, na prática, está longe de cumprir o mínimo que promete.
Da redação, postado em 26 de agosto de 2026, às 12h40. Texto revisado pelo Editor, André L. Guimarães.












