Noventa dias depois, a pergunta que nos fizemos continua sendo a mesma

Por André L. Guimarães, Editor

Há 90 dias, a Revista Sapiências não tinha um único leitor. Não tinha visitante, não tinha seguidor, não tinha história. Tinha só uma pergunta incômoda, que foi o motivo de tudo isso existir: por que o cidadão comum entende tão pouco das leis que decidem o rumo da própria vida?

Não é pergunta retórica. É a pergunta que ouvimos, de formas diferentes, toda vez que alguém nos procura depois de uma demissão que não entendeu, de uma negativação que apareceu do nada, de uma pensão que nunca soube como foi calculada, de uma prisão na família sobre a qual ninguém explicou nada. O Direito brasileiro não é pequeno nem simples — mas o problema nunca foi o tamanho da lei. Foi sempre a distância entre quem escreve e quem precisa entender.

Hoje, 90 dias depois daquela pergunta, temos uma resposta parcial, ainda em construção: 71.300 pessoas visitam o site todos os meses. No Instagram, os últimos 30 dias somaram 895.100 visualizações e 105.537 interações — uma taxa de engajamento de quase 12%, o tipo de número que normalmente demora anos para aparecer, não um trimestre.

Não escrevemos esses números para nos gabar. Escrevemos porque eles confirmam algo que apostamos sem garantia nenhuma no primeiro dia: que existe, sim, um público inteiro cansado de “juridiquês”, disposto a ler sobre os próprios direitos desde que alguém se dê ao trabalho de explicar direito — no sentido simples da palavra, e também no jurídico.

O que 90 dias de leitores nos ensinaram

Aprendemos, por exemplo, que ninguém procura a Sapiências querendo aprender Direito Constitucional pelo prazer de aprender. As pessoas chegam com um problema específico: uma dívida que apareceu do nada, um filho preso, uma demissão que parece injusta, uma gravidez seguida de desligamento. Chegam com medo, não com curiosidade acadêmica. E é justamente por isso que a fórmula que mais funcionou, desde o primeiro dia, não foi a explicação mais completa — foi a mais honesta. Dizer “depende” quando depende. Recusar o “sempre” e o “nunca” que tanto simplificam e tanto enganam. Tratar quem lê como alguém capaz de entender uma resposta complexa, desde que ela venha em linguagem simples.

Aprendemos também que o Direito, sozinho, não fecha essa distância inteira. Uma decisão do STF, por mais bem traduzida que seja, ainda carece de algo que só quem vive a prática consegue entregar: a experiência de quem já viu aquele problema específico bater à porta antes, com nome, rosto e circunstância. Foi esse aprendizado que nos trouxe até aqui.

Por isso, hoje nasce a “Palavra de Especialista”

A partir de hoje, a Sapiências deixa de ser só a redação traduzindo o que aconteceu no Judiciário, e passa também a ceder espaço, semana após semana, para quem constrói o Direito na prática. Terça-feira é “Você e Seus Direitos”. Quarta, “Trabalho e Direitos”. Quinta, “Crime e Justiça”. Sexta, “Família e Lei”. Sábado, “À Luz da Psicologia Jurídica” — porque entendemos, desde o início, que a experiência humana por trás de um processo importa tanto quanto o processo em si.

Quem abre essa coluna é o Dr. João Duarte Silveira Medeiros de Vasconcellos, advogado inscrito na OAB/RJ sob o nº 143.105, com 20 anos dedicados à defesa dos direitos dos consumidores. Não o convidamos por acaso, nem por currículo: convidamos porque sua trajetória é exatamente o tipo de experiência que uma tradução, por melhor que seja, não substitui.

Seu primeiro artigo já está no ar: “Corte Indevido de Energia Elétrica: uma prática recorrente que fere os direitos do consumidor” — um tema que, não por coincidência, está entre os que mais chegam até nós em forma de dúvida e desabafo. Não é exagero dizer que poucas experiências resumem tão bem o que a Sapiências quer combater quanto abrir a porta de casa no escuro, sem aviso prévio, sem saber se aquilo era sequer legal.

O que não muda

Uma coisa não muda com o crescimento, e fazemos questão de deixar isso registrado logo nesse marco simbólico dos 90 dias: a Sapiências não troca clareza por autoridade, nem honestidade por audiência. Convidar especialistas para assinar colunas não significa terceirizar o compromisso com a linguagem acessível — significa reforçá-lo com mais uma voz, mais uma experiência, sempre na mesma régua: nada de fórmula pronta, nada de “é sempre assim”, porque o Direito de verdade lida com exceção, prazo e circunstância, e foi assim que decidimos tratá-lo desde o primeiro texto publicado aqui.

Noventa dias atrás, a pergunta era se alguém ia se importar com isso. Hoje, com quase 900 mil visualizações no mês só no Instagram, a pergunta mudou de figura: não é mais se as pessoas se importam — é como continuar merecendo essa atenção, texto após texto, coluna após coluna. Essa é a única meta que realmente importa para os próximos 90 dias.

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