Polícia do Rio identificou 21 perfis que anunciam veículos clonados na rede social. Alguns exibem até uma bandeira vermelha, sinal de parceria com o Comando Vermelho. O TikTok diz que removeu as contas.
Um Audi Q8 2019, que no mercado vale mais de R$ 300 mil, aparece à venda por R$ 15 mil: vinte vezes menos. Não é promoção. É um dos anúncios de carros clonados que circulam no TikTok, no Rio de Janeiro.
A Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis da Capital (DRFA-CAP) já identificou pelo menos 21 perfis dedicados a esse comércio ilegal. Muitos oferecem carros de luxo por preços muito abaixo da média e usam a própria plataforma para conversar com os interessados.
Um deles, com mais de 21 mil seguidores, nem tenta disfarçar. Na descrição da página, avisa que o canal é dedicado à “venda de veículos clonados e bode”. E completa: “Também trabalho com peças e com puxada de documentos”.
Procurado, o TikTok afirmou que suas Diretrizes da Comunidade proíbem conteúdos que promovam crimes capazes de causar danos a pessoas, animais ou bens. A nota completa está no fim desta reportagem.
Até 20 vezes abaixo do preço de mercado
O Audi não é exceção. Em outro anúncio, um Toyota Corolla 2022 sai por R$ 8,5 mil, enquanto a Tabela Fipe, referência de preços do mercado, aponta mais de R$ 100 mil. Um Jeep Compass Sport 2024, também acima de R$ 100 mil, é oferecido pelos mesmos R$ 8,5 mil.
E há quem queira comprar. Nos comentários, aparecem perguntas como “como faço para buscar?” e “tem para pronta entrega ou ainda vai buscar?”. Segundo a polícia, os criminosos também usam esses canais para receber encomendas e roubar carros conforme o pedido do comprador.
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A bandeira vermelha nos anúncios
Os perfis analisados pelo g1 atuam, em sua maioria, em áreas dominadas pela facção Comando Vermelho (CV). Em várias publicações, o anúncio traz a frase “entrego dependendo da região- RJ”, acompanhada de um ícone de bandeira vermelha 🚩. Para a polícia, o símbolo indica parceria com a organização criminosa.
As investigações começaram em maio de 2025. O delegado Thiago Neves Bezerra, diretor da DRFA, conta que a polícia acompanha diferentes perfis usados nesse tipo de venda.
“As redes sociais passaram a funcionar como uma espécie de vitrine para esse mercado criminoso. O anúncio de um Corolla por R$ 8 mil, por exemplo, não representa uma oportunidade comercial: é um forte sinal de alerta. Esses grupos exploram o enorme alcance das plataformas, a facilidade de criação e substituição de perfis e a velocidade de comunicação para encontrar compradores”, afirma.
Perfis que duram semanas
As contas vivem pouco: de 30 a 60 dias, segundo o delegado. Quando a polícia pede que os dados sejam preservados para aprofundar a investigação, a plataforma primeiro bloqueia o perfil e, depois, o bane.
O problema maior é descobrir quem está por trás de cada conta. De acordo com o delegado, os dados cadastrais enviados pela plataforma às vezes levam a e-mails falsos ou a pessoas que nem sabem que tiveram o nome usado.
“Tentam criar camadas de anonimato entre quem anuncia, quem recebe o dinheiro e quem efetivamente está por trás da venda. Por isso, a investigação não termina no perfil da rede social. É necessário seguir o caminho digital e financeiro da operação, cruzando contas, telefones, dispositivos, pagamentos e demais elementos que permitam chegar às pessoas que realmente integram a estrutura criminosa”, diz Thiago.
O dinheiro passa por outras mãos
O rastro financeiro também foi pensado para despistar. A polícia encontrou números de telefone usados como chave Pix, ligados a “laranjas” do grupo e cadastrados em nome de terceiros, inclusive de moradores de outros estados.
Na Operação Sinal Oculto, em agosto, os investigadores identificaram ainda pagamentos feitos por contas de terceiros. Segundo a polícia, os vendedores usavam essas contas, com a conivência de alguns titulares, para esconder quem de fato lucrava com as vendas. A análise de dados, autorizada pela Justiça, permitiu chegar a quem recebia o dinheiro e também a compradores.
Operação Sinal Oculto
A DRFA-CAP deflagrou a operação em 27 de agosto de 2026. Dos 37 mandados de busca expedidos, 11 terminaram com apreensões. Uma pessoa foi presa por mandado de prisão, e outras duas, em flagrante.
A lista do que foi recolhido é longa. Inclui 19 celulares, oito máquinas de cartão, sete rádios comunicadores, três veículos, dois simulacros de fuzil, sete munições e dois pen drives. Também foram apreendidos um protetor de luneta, uma arma branca, um relógio, um documento, uma balança, cinco cintos táticos, um coldre, um rádio de veículo, dois carregadores de rádio e de pilha, uma mochila, um porta-cantil e uma camisa.
Completam o balanço 18 caixas de sabonetes, 170 embalagens de drogas, descritas como crack, erva seca e pó branco, e uma caixa de pó branco. Ao longo da operação, a Polícia Civil do Rio registrou 17 ocorrências.
O que os celulares podem revelar
Os aparelhos apreendidos por ordem judicial passam agora pela perícia técnica. Depois, os dados seguem para as equipes de investigação, segundo a DRFA-CAP.
A polícia espera que esse material ajude a montar o desenho do grupo: como se ligam os perfis, os vendedores, os compradores, as contas usadas para receber pagamentos e os demais integrantes.
O que diz o TikTok
O TikTok informou que os perfis foram removidos por violar as políticas de comportamento da plataforma. Leia a nota na íntegra:
“O TikTok deixa claro nas suas Diretrizes da Comunidade que não permite conteúdos que promovam crimes que possam causar danos a pessoas, animais ou bens. Sendo proibido na plataforma:
- Promover roubo ou destruição de propriedade;
- Compartilhar instruções sobre como cometer crimes que possam causar danos a pessoas, animais ou propriedade.
Nosso sistema de moderação atua de forma contínua e, mesmo sem denúncias, retira automaticamente conteúdos que violam nossas Diretrizes da Comunidade.
No Centro de Transparência, publicamos trimestralmente relatórios de moderação. O mais recente, referente ao primeiro trimestre de 2026, aponta que 99,7% dos vídeos que violaram nossas políticas de segurança e civilidade, que incluem nossas regras sobre comportamento criminoso, foram removidos proativamente, antes de qualquer denúncia. O mesmo relatório aponta que 92,6% dos conteúdos que violaram nossas políticas sobre o tema foram removidos antes de qualquer visualização.”
Para entender os termos
- Carro clonado: veículo, em geral roubado, que recebe placa e dados de outro carro regular para circular como se fosse ele.
- Tabela Fipe: tabela de referência de preços médios de veículos no mercado brasileiro.
- Laranja: pessoa que empresta o nome, a conta ou o telefone para esconder quem realmente está por trás de um negócio ilegal.
- Mandado de busca: ordem judicial que autoriza a polícia a entrar em um local para procurar provas.
- Prisão em flagrante: prisão feita no momento em que o crime está acontecendo ou logo depois.
- Simulacro: imitação de arma, que não dispara, mas tem aparência de real.
Desconfie: carro de luxo por uma fração do preço de mercado é sinal de crime, e não de oportunidade. Para denunciar anúncios suspeitos, use o canal de denúncia da própria rede social ou procure a Polícia Civil.
Fontes
- g1 — Audi de R$ 300 mil por R$ 15 mil: polícia identifica 21 perfis que vendem carros clonados no TikTok
Por André Luiz Guimarães, editor | Revisão jurídica: Dra. Mariana Rodrigues Valle Guimarães, OAB/RJ 205.702
Publicado em 7 de outubro de 2026, às 13h00.













