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Violência doméstica: o medo que ninguém explica

Por Quêmela Albuquerque – Psicóloga Clínica e Perita Forense – CRP 05/68157

Para Entender Rapidamente: A violência doméstica é um problema sério que afeta muitas mulheres. Neste artigo, vamos usar a Psicologia para entender por que isso acontece, como afeta as vítimas e por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo. Veremos que a lei, como a Maria da Penha, precisa da ajuda da Psicologia para realmente proteger e ajudar quem precisa.

A violência doméstica e familiar contra a mulher não é um problema que acontece só dentro de casa. É uma questão que afeta toda a sociedade e a saúde de muitas pessoas. Quando olhamos para isso com a ajuda da Psicologia Jurídica, percebemos que é uma grave violação dos direitos humanos, que nasce de ideias antigas sobre o poder dos homens e de relações doentias [1] [2] [3]. Entender bem o que causa e o que a violência provoca é essencial para que a justiça possa agir de forma eficaz.

1. Por Que é Tão Difícil Sair de um Relacionamento Abusivo?

Para quem trabalha com a lei, é fundamental entender os motivos psicológicos que prendem uma pessoa em um relacionamento abusivo. Dois conceitos importantes nos ajudam nisso:

  • O Ciclo da Violência: A psicóloga Lenore Walker descreveu um padrão que se repete em relacionamentos abusivos. Ele tem três fases: a tensão (onde a agressão começa a crescer), a explosão (a agressão em si) e a lua de mel (um período de arrependimento e carinho do agressor, que dá uma falsa esperança à vítima). Esse ciclo vicioso confunde a vítima e dificulta a saída [4].
  • O Desamparo Aprendido: O psicólogo Martin Seligman explicou que, depois de passar por muitas situações de controle e agressão, a pessoa pode começar a acreditar que não tem mais controle sobre sua própria vida. Isso faz com que ela se torne passiva e tenha muita dificuldade em procurar ajuda [5].

Esses fenômenos psicológicos não mostram que a vítima é fraca ou que concorda com o abuso. Pelo contrário, são sinais claros do trauma e da manipulação que ela sofreu.

2. O Que Acontece com o Cérebro de Quem Sofre Violência?

O impacto da violência doméstica vai além do sofrimento emocional; ele causa mudanças importantes no cérebro. A pessoa que vive sob estresse e medo constantes tem seu cérebro afetado, principalmente as áreas responsáveis pela memória e pela tomada de decisões. Por isso, é comum que as vítimas tenham:

  • Memórias Fragmentadas: Elas podem não se lembrar de todos os detalhes da violência ou contar a história de forma confusa.
  • Dissociação: Em momentos de muito estresse, a mente pode se “desligar” da realidade como uma forma de proteção.

Essas reações são normais para quem vive um trauma e precisam ser entendidas pelo sistema de justiça. A Psicologia Jurídica ajuda a mostrar a ligação entre a violência sofrida e os problemas emocionais e de memória que a vítima apresenta, o que é fundamental para provar o dano causado [6] [7].

3. A Violência Não Afeta Todo Mundo Igual: Olhar para as Diferenças

A violência doméstica não atinge todas as mulheres da mesma forma. É importante olhar para as interseccionalidades, ou seja, como outras características da mulher (como raça, classe social, ser trans, idosa ou ter alguma deficiência) podem tornar a experiência do abuso ainda mais difícil. Mulheres que se encaixam nesses grupos podem enfrentar mais barreiras para conseguir ajuda e justiça, por causa do preconceito e da falta de recursos específicos [8] [9]. A Psicologia Jurídica precisa considerar essas diferenças para garantir que a ajuda seja justa e inclusiva para todas.

4. Por Que a Lei Precisa da Psicologia?

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é uma ferramenta muito importante para combater a violência doméstica. Mas ela não deve ser usada apenas para punir. Ela também deve ser um caminho para transformar a sociedade e devolver a dignidade às mulheres. Para isso, a ajuda da Psicologia é essencial. Ela nos ajuda a entender as emoções envolvidas, a avaliar os danos psicológicos, a identificar riscos e a propor soluções que vão além da punição, buscando a recuperação completa da vítima e evitando que a violência se repita [2] [10].

Conclusão: Uma Justiça Mais Humana

A Psicologia Jurídica, ao nos ajudar a entender as complexas camadas da violência doméstica, oferece ao Direito uma visão essencial para agir de forma mais sensível, informada e eficaz. Conhecer o Ciclo da Violência, o Desamparo Aprendido, como o trauma afeta o cérebro e as diferentes realidades das mulheres é um compromisso ético e profissional. Só assim, o sistema de justiça poderá ir além de simplesmente aplicar a lei e se tornar um verdadeiro agente de proteção e transformação social, garantindo que a dignidade e a segurança das mulheres sejam uma realidade para todas.

Referências Bibliográficas

  1. SAFFIOTI, H. I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.
  2. BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha). Brasília, DF.
  3. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) no atendimento às mulheres em situação de violência. Brasília: CFP, 2024.
  4. WALKER, L. E. The Battered Woman. New York: Harper & Row, 1979.
  5. SELIGMAN, M. E. P. Helplessness: On Depression, Development, and Death. San Francisco: W.H. Freeman, 1975.
  6. VAN DER KOLK, B. O corpo guarda a dor: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.
  7. SILVA MOREIRA, C. V. R. Trauma e verdade: A confiabilidade da vítima-testemunha em crimes sexuais e domésticos. LG Pública, 2025.
  8. SOUSA, L. O. A dupla vulnerabilização da mulher negra: uma análise sobre a interseccionalidade e violência doméstica. IndexLaw, 2024.
  9. SOUZA, N. A. B. Violência patrimonial sob a ótica da interseccionalidade. Revistas CEEINTER, 2026.
  10. TRINDADE, J. Manual de Psicologia Jurídica para Operadores do Direito. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012.

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Da redação, atualizado em 05/08/2026, às 00h51

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