A Polícia Civil investiga seis mortes no Hospital Salvalus, da rede HapVida. Advogada das famílias diz estar em contato com 36 mães que perderam filhos na unidade nos últimos meses.
Por Editor André L. Guimarães | Revisão jurídica: Dra. Mariana Rodrigues Valle Guimarães, OAB/RJ 205.702
Publicado em 22 de outubro de 2026, às 11h22 – Fonte: Metropoles
São Paulo – A Polícia Civil de São Paulo abriu um inquérito para apurar uma série de mortes de bebês ao longo deste ano no Hospital Salvalus, na Mooca, zona leste da capital. As crianças teriam contraído infecções dentro do hospital e morrido de sepse ou choque séptico, entre outras complicações.
O 8º Distrito Policial (Brás) investiga seis casos, mas a reportagem teve acesso a 16 certidões de óbito. A advogada que representa os pais diz estar em contato com 36 mães que perderam os filhos no hospital nos últimos meses. O Salvalus faz parte da rede HapVida, e o número de mortes pode ser ainda maior.
“Pra todos os efeitos, na rede [HapVida] o Salvalus é o hospital referência. Então, todos os casos vão para lá. Por isso, a gente não tem noção da profundidade da quantidade de óbitos”, disse a advogada Eduarda Fragnan Gomes ao Metrópoles.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que os casos, ocorridos em meses anteriores, foram comunicados nesta quarta-feira (21/10). “A autoridade policial realiza diligências, inclusive com as oitivas de profissionais de saúde e testemunhas, análise integral dos prontuários médicos, visando esclarecer as causas das mortes”, disse a pasta.
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Entrou com inflamação na garganta e morreu com necrose no pé
Em abril, um bebê de 4 meses foi atendido no hospital com inflamação na garganta. Segundo o depoimento da mãe à Polícia Civil, a equipe receitou amoxicilina e dipirona em gotas, sem pedir exames.
No dia seguinte, Gael França da Silva teve queda de temperatura e ficou pálido. Um médico suspeitou de infecção pulmonar e pediu exames, inclusive de sangue, que confirmaram a infecção.
Gael foi levado para a unidade de terapia intensiva (UTI) e intubado. Como a equipe teve dificuldade para encontrar as veias, a medicação na veia foi aplicada no pé. Dias depois, esse pé necrosou. Um cirurgião vascular examinou o membro, mas não conseguiu reverter o quadro.
A mãe também percebeu que os olhos do bebê ressecaram durante a internação, e a visão ficou comprometida. No fim de maio, depois de mais de um mês em coma induzido na UTI, Gael foi transferido para a enfermaria, ainda inconsciente. A equipe justificou a transferência pela alta concentração de bactérias na UTI.
Preocupada, a mãe comprou por conta própria um oxímetro para acompanhar a oxigenação do filho. Ao notar queda na saturação, pediu que ele voltasse à UTI. Dois meses depois, Gael morreu, aos 7 meses. A certidão de óbito registra como causas choque séptico, encefalopatia hipóxico-isquêmica, sepse e pneumonia.
Paradas cardiorrespiratórias e hemorragia
Em março, um recém-nascido de um mês, com histórico de icterícia, foi internado no Salvalus. Ao chegar, passou por uma cirurgia e recebeu medicamentos.
Depois da medicação, Guilherme Ferreira Miranda passou a ter movimentos repetitivos nas pernas por longos períodos, que evoluíram para inchaço no corpo. A mãe ouviu que era uma reação comum do pós-operatório, mas logo desconfiou de uma infecção bacteriana.
Ao trocar a fralda do filho antes do banho, ela encontrou muito sangue já seco. Em seguida, os aparelhos de monitoramento dispararam: o bebê estava em parada cardiorrespiratória.
Guilherme foi socorrido e intubado, e a alimentação foi suspensa por suspeita de “intoxicação”. Ele precisou de transfusões de sangue e emagreceu muito durante a internação, que durou cerca de um mês.
No início de maio, pouco antes de morrer, o bebê teve nova parada cardiorrespiratória. Segundo o boletim de ocorrência, durante o socorro o pai ouviu dois enfermeiros falando sobre a medicação. “Não era para usar o ambu [bolsa de reanimação manual]”, teria dito o primeiro. “Ixi, mas eu já usei”, respondeu o segundo.
A chefe da equipe médica comunicou a morte aos pais. Ao pegar o filho no colo para se despedir, a mãe viu muito sangue saindo pelos ouvidos, pelas narinas e pela parte de baixo do corpo do bebê. Ela o devolveu ao berço e se despediu.
No boletim, a mãe disse saber de “relatos envolvendo aproximadamente 20 outras mães que teriam passado por situações semelhantes”.
A certidão de óbito de Guilherme aponta como causas choque, coagulação intravascular disseminada e atresia de vias biliares. Por causa do luto, os pais só conseguiram registrar o boletim de ocorrência cinco meses depois.
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Infecção bacteriana no cérebro
Alice Vitória de Andrade Reis tinha 6 meses quando deu entrada no Salvalus, em novembro do ano passado, para uma gastrostomia. O procedimento cria um acesso direto entre a parede do abdômen e o estômago, para alimentação e medicamentos. No mesmo dia, como é de praxe, ela foi para a UTI.
Alice tinha condições graves: a síndrome de Dandy-Walker, que afeta o sistema nervoso central, hidrocefalia e comunicação interventricular (CIV), uma cardiopatia congênita comum na infância. Segundo a família, ela não teria recebido os cuidados adequados durante a internação.
No hospital, Alice teve rompimento dos pontos da cirurgia, uma parada cardiorrespiratória e edema pulmonar. Três meses depois da entrada, o quadro piorou: surgiram sinais de infecção bacteriana no cérebro, o que reduziu o efeito dos antibióticos. A mãe suspeita de contaminação cruzada dentro do hospital.
Alice morreu em abril, com apenas 1 ano de idade, após seis meses internada. A certidão de óbito aponta como causas insuficiência respiratória aguda, ventriculite infecciosa, sepse de foco pulmonar, hidrocefalia e síndrome de Dandy-Walker.
“Nunca mais saí com ela de lá”
A assistente social Leticia Ferreira, de 29 anos, mãe de Alice, lembra que, apesar das condições de saúde, a filha não estava doente quando chegou ao Salvalus. Ela tinha ido apenas para trocar a sonda de alimentação. “Ela nunca teve uma sentença, não era incompatível com a vida”, disse ao Metrópoles.
Alice passou metade dos seus 12 meses de vida internada. Na maior parte desse tempo, ficou intubada na UTI, quase sem contato com a mãe.
“Eu sequer tinha entendido as violências que minha filha tinha sofrido. Na hora você não vai assimilando”, lembra. Segundo Leticia, depois de contrair a superbactéria KPC, resistente aos antibióticos usados contra infecções hospitalares, a filha desenvolveu vários problemas de saúde que a levaram à morte.
“Fomos pra uma cirurgia simples e achei que iria embora, e nunca mais saí com ela de lá”, lamenta.
Ela diz ter sentido alívio com a abertura do inquérito e espera que o hospital seja responsabilizado. “Nada vai trazer minha filha de volta, mas são tantos casos, tantas mães, que não acho justo que o hospital não pague por isso”, afirma.
O que diz o hospital
Em nota, a rede HapVida, responsável pelo Salvalus, afirmou que “os pacientes mencionados apresentaram condições clínicas distintas e de elevada gravidade, tendo cada um deles recebido assistência contínua e multidisciplinar, com suporte de uma estrutura hospitalar de alta complexidade e atuação integrada de profissionais de diversas especialidades”.
Segundo a rede, “as condutas terapêuticas foram individualizadas, considerando as necessidades de cada paciente e a evolução de seus quadros clínicos”.
“Por meio de sua diretoria de acolhimento, a unidade mantém um canal aberto de diálogo, colocando-se à disposição para ouvir e prestar os esclarecimentos necessários, com respeito à privacidade e ao sigilo médico”, finalizou a nota.
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