Por Quêmela Albuquerque – Psicóloga Clínica e Perita Forense – CRP 05/68157
Para Entender Rapidamente: Na nossa edição anterior, conversamos sobre como a violência doméstica vai muito além das agressões físicas e como a mente e o corpo de quem sofre abuso ficam marcados pelo medo e pelo controle. Para quem está vivendo essa situação ou apoia alguém próximo(a), surge a pergunta inevitável: “E agora? Como dar o primeiro passo para sair desse ciclo?” Nesta edição, queremos mostrar a importância do acolhimento psicológico, da rede de apoio e de como é possível reconstruir a esperança e a autonomia.
A Coragem de Romper o Silêncio
Compreender que a culpa não é da vítima e que a violência psicológica e o gaslighting deixam marcas profundas é um passo libertador.
Para quem ainda não conhece o termo, vale lembrar que o gaslighting é uma forma sutil e cruel de manipulação mental em que o agressor distorce a realidade, mente, nega fatos que aconteceram e faz a vítima duvidar da própria sanidade, da sua memória e do seu julgamento (“Você está louca”, “Isso nunca aconteceu”, “Você inventa coisas”). Com o tempo, essa manipulação destrói a confiança que a mulher tem em si mesma, tornando-a cada vez mais dependente do agressor.
No entanto, entender o problema é apenas o começo da jornada. O grande desafio que chega até os consultórios é: Como transformar esse entendimento em liberdade?
Muitas mulheres acreditam que estão sozinhas no mundo, que ninguém vai acreditar em suas dores ou que não possuem forças para recomeçar. É exatamente sobre esse momento delicado — o momento em que a dor começa a dar lugar à busca por ajuda — que precisamos conversar hoje.
1. Desfazendo a Solidão: A Força da Rede de Apoio
Um dos maiores truques de uma relação abusiva é o isolamento. O agressor costuma afastar a vítima de seus amigos, de sua família e de tudo o que lhe traz alegria, fazendo-a acreditar que ela depende exclusivamente dele para sobreviver emocional e financeiramente.
Quando conversamos com especialistas no comportamento humano, percebemos que o primeiro passo para a recuperação não é dar um salto gigantesco sozinho, mas sim reconectar-se com o mundo.
- Acolhimento sem julgamentos: Conversar com uma amiga de confiança, um familiar acolhedor ou buscar ajuda profissional especializada faz com que a mulher perceba que a culpa do abuso nunca foi dela.
- O papel do espaço terapêutico: No consultório, costumo dizer que a terapia funciona como um lugar seguro para respirar. É onde a vítima pode, finalmente, tirar o peso dos ombros, organizar seus pensamentos e recuperar a confiança em sua própria voz.
2. A Lei e a Mente Caminhando Juntas no Dia a Dia
No nosso encontro passado, vimos que a Justiça e a Psicologia precisam andar de mãos dadas. Mas o que isso significa na prática para quem busca proteção?
Significa que quando uma mulher toma a decisão de procurar ajuda jurídica ou policial, ela não precisa enfrentar esse processo sozinha e desamparada emocionalmente. A proteção da lei — como as medidas protetivas da Lei Maria da Penha — é um escudo essencial, mas o acompanhamento psicológico é o que ajuda a cicatrizar as feridas de dentro para fora.
Muitas pessoas vítimas de violência pensam: “Tenho medo de ir à delegacia e me sentir julgada”. É por isso que nós, profissionais da saúde mental, defendemos um atendimento humanizado em todas as frentes. A justiça precisa acolher o medo, e a psicologia precisa dar suporte para que essas pessoas recuperem o controle sobre o seu próprio destino.
3. Pequenos Passos para a Reconstrução da Vida
Recomeçar após vivenciar um relacionamento abusivo não acontece da noite para o dia. É um processo que exige paciência, auto perdão. carinho consigo mesma e pequenos passos diários:
- Validar os próprios sentimentos: Aceitar que chorar, sentir medo ou ter dúvidas é normal para quem passou por um trauma, mas que você não precisa viver refém desses sentimentos para sempre.
- Resgatar a própria identidade: Lembrar do que você gostava de fazer antes do relacionamento, retomar pequenos gostos, hobbies e laços que foram podados pelo agressor.
- Saber que a ajuda existe: O Brasil conta com redes de atendimento, como o Disque 180, Delegacias da Mulher e centros especializados, além de profissionais preparados para estender a mão sem julgamentos.
Considerações Finais: Você Não Está Sozinha
Continuando a nossa conversa aqui na Revista Sapiências, queremos deixar uma mensagem muito acolhedora para você que lê esta coluna: a violência doméstica não define quem você é. Ela é algo que você sofreu, mas a sua história não termina nela.
Com o apoio da lei, o acolhimento da psicologia e a força que existe dentro de você, é possível virar essa página e reconstruir uma vida com paz, respeito e liberdade. Caminhamos juntos por você!
Referências Bibliográficas
- BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha). Brasília, DF.
- CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) no atendimento às mulheres em situação de violência. Brasília: CFP, 2024.
- HERMAN, Judith L. Trauma and Recovery: The Aftermath of Violence—from Domestic Abuse to Political Terror. New York: Basic Books, 1992.
- EVANS, Patricia. The Verbally Abusive Relationship: How to Recognize It and How to Respond. Avon: Adams Media, 2010.












