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Quando a Lei Abraça a Dor: Por Que Precisamos da Psicologia para Entender a Violência Doméstica

Por Quêmela Albuquerque – Psicóloga Clínica e Perita Forense – CRP 05/68157

Para Entender Rapidamente:  Aqui nas páginas da Revista Sapiências, vamos conversar sobre como a justiça tenta proteger as mulheres. Mas a verdade é que um juiz, sozinho, não consegue enxergar aquilo que está escondido no coração e na mente de quem sofreu abuso. Nesta edição, quero convidar você a entender, de forma bem simples e humana, por que a lei precisa dar as mãos à psicologia. Amparada por especialistas como a pesquisadora Patricia Evans e o psiquiatra Bessel van der Kolk, vamos tentar entender sobre o porquê o medo paralisa, como a violência invisível machuca tanto quanto a física e de que maneira essa união pode salvar vidas.

Muito Além do que os Olhos Podem Ver

Quando ouvimos falar em violência doméstica, logo nos vêm à mente imagens muito duras: marcas roxas, portas fechadas à força, pedidos de socorro na delegacia, ligações para o número 180. No entanto, no dia a dia da minha profissão, conversando com tantas pessoas que passam por isso, percebo que a realidade é bem mais silenciosa e profunda.

Muitas vezes, a maior dor de uma pessoa que sofre violência não está na pele; está na alma. É aquela sensação constante de medo, de culpa e de dúvida que ninguém consegue enxergar a olho nu. É por isso que podemos dizer que: a lei, por mais importante que seja, funciona como uma ferramenta incompleta quando atua isolada. Ela precisa caminhar junto com a psicologia para conseguir enxergar o que está oculto e iluminar os cantos mais escuros de uma relação abusiva.

1. A Mente Sob Pressão

Uma das perguntas que a pessoas vítimas de violência escutam é: “Se a situação era tão difícil, por que ela demorou tanto tempo para pedir ajuda ou por que acabou voltando para casa?”.

Para responder a isso sem julgamentos, precisamos compreender como o cérebro humano reage quando vive sob ameaça constante. Autoras importantes, como a especialista em relacionamentos abusivos Patricia Evans, nos mostram que o controle nunca começa com um tapa. Ele se instala aos poucos, por meio de palavras que destroem a autoestima, críticas diárias e manipulações sutis que fazem a mulher duvidar da própria sanidade.

Além disso, o renomado médico Bessel van der Kolk, referência mundial no estudo do trauma, nos explica que o corpo e a mente de quem vive em perigo contínuo entram em um estado de sobrevivência defensiva. O cérebro fica, literalmente, travado pelo medo extremo. Quando alguém indaga “por que você não reagiu?”, esquece que o pavor paralisa. A vítima não permanece na relação por falta de vontade, mas porque o seu mundo emocional foi completamente cercado e dominado pelo agressor, e muitas vezes a saída parece algo impossível ou irreal. 

2. A Lei Reconhece o que a Mente Sente

Durante muito tempo, a justiça só conseguia punir aquilo que deixava marcas visíveis no corpo. Sorte a nossa que os tempos estão mudando! No Brasil, a Lei Maria da Penha e, mais recentemente, a legislação que criminalizou a violência psicológica vieram para firmar um princípio fundamental: o sofrimento emocional e as humilhações constantes também são crimes graves.

Mas surge então um grande desafio prático: como comprovar perante um juiz algo que não aparece em um exame médico tradicional? É exatamente nesse momento que o trabalho da psicologia se torna indispensável. Nós atuamos para traduzir em palavras precisas e laudos técnicos a extensão dessa ferida invisível, demonstrando ao sistema jurídico que a dignidade daquela mulher foi profundamente violada.

3. Acolher a Vítima e Transformar o Agressor

Para que a justiça cumpra plenamente o seu papel, ela precisa ser humana e abrangente. Quando psicólogos e operadores do Direito unem forças, tornamos possível alcançar dois objetivos essenciais:

  • Proteger com Precisão: Auxiliamos na avaliação correta do risco real que aquela mulher enfrenta, permitindo que as medidas protetivas sejam concedidas com a urgência e a eficácia necessárias.
  • Transformar a Raiz do Problema: A legislação também prevê a participação de homens autores de violência em grupos reflexivos. Nesses espaços, contando com o suporte de equipes de saúde mental, esses homens são confrontados com suas crenças machistas e violentas, e esperamos que aprendam a assumir a responsabilidade por seus atos para que o ciclo de agressão seja rompido definitivamente.

Considerações Finais: Caminhando Juntos por Você

Escrever esta coluna na Revista Sapiências é um lembrete constante de que a justiça só se realiza por completo quando enxerga a pessoa humana por trás de cada processo. A lei oferece o escudo e a proteção normativa, mas, é a escuta ativa e o acolhedora que a Psicologia vai atuar para transformar o choro silencioso, o trauma e o medo em força, coragem e esperança para um novo dia.

Se você ou alguém que você conhece está vivenciando essa situação, saiba que você não está sozinha. A lei e a psicologia estão aqui para estender a mão a você. Cuidar da mente é o primeiro e mais importante passo para reconstruir a liberdade e a esperança.

Referências Bibliográficas

  1. BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha). Brasília, DF.
  2. BRASIL. Lei nº 14.188, de 28 de julho de 2021 (Criminalização da Violência Psicológica). Brasília, DF.
  3. EVANS, Patricia. The Verbally Abusive Relationship: How to Recognize It and How to Respond. Avon: Adams Media, 2010.
  4. VAN DER KOLK, Bessel. The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. New York: Viking, 2014.

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