Enquanto homicídios e roubos recuam, o estelionato disparou mais de 400% desde 2018 — e o brasileiro já teme mais um golpe pelo celular do que a violência na rua.
Há um crime que não precisa de arma, nem de rua deserta, nem de escuridão. Basta um número de telefone, uma mensagem bem escrita e um segundo de distração. E, segundo o novo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, esse crime está avançando justamente na direção oposta a quase tudo o mais no país: enquanto homicídios dolosos, lesões seguidas de morte, latrocínios, roubos e furtos vêm caindo, o estelionato disparou.
Os números ajudam a entender o tamanho do fenômeno. Só em 2025, foram 2.261.055 ocorrências registradas no Brasil — somando tanto o golpe tradicional quanto sua versão mais recente, praticada por telefone, aplicativo ou internet. Comparado a 2018, primeiro ano da série histórica do levantamento, o salto foi de 429,8%. Não chega a surpreender, então, que o golpe tenha se tornado o crime que mais assombra o brasileiro: 83,2% da população diz temer ser vítima de uma fraude digital, um medo que hoje supera até o receio da violência física.
Mas o que exatamente compõe essa estatística? O Anuário mapeia os golpes que mais se repetem no país — e vale conhecê-los, porque a maioria segue um roteiro parecido: criar urgência, explorar confiança e agir antes que a vítima pare para pensar.
Cartão clonado ou trocado. Criminosos capturam número, validade e código de segurança do cartão por páginas falsas, maquininhas adulteradas, vazamentos de dados ou ligações fraudulentas — e depois fazem compras sem autorização. Na versão da troca, o golpe acontece ao vivo: o criminoso confunde a vítima durante uma compra e devolve, no lugar do cartão original, outro qualquer.
Golpe do WhatsApp. O criminoso se faz passar por alguém que a vítima já conhece, geralmente escrevendo de um número novo sob a desculpa de ter perdido ou trocado o antigo. Em seguida, vem o pedido: dinheiro urgente, um boleto para pagar, uma transferência para a conta de um “terceiro” de confiança.
Golpe da falsa central bancária. Uma ligação ou mensagem se apresenta como sendo do banco, alertando sobre compras suspeitas, uma invasão de conta ou a necessidade de “atualizar a segurança”. A partir daí, a vítima é conduzida passo a passo: informa senhas e códigos, instala um programa de acesso remoto, transfere dinheiro para uma suposta conta segura ou simplesmente entrega o cartão a um falso funcionário que aparece à porta.
Golpe do Pix. Guarda-chuva de fraudes que usam a velocidade do Pix a seu favor. Aparece sob muitas formas — pedido de um “conhecido” falso, central bancária fake, venda que nunca existiu, comprovante adulterado, QR Code ou chave trocada, promessa de investimento milagroso —, mas o resultado é sempre o mesmo: o dinheiro sai da conta da vítima e não volta.
Golpe do CPF via SMS. Uma mensagem de texto avisa sobre uma suposta irregularidade no CPF, com um link ou telefone de contato. Ao seguir a instrução, a vítima acaba entregando dados pessoais — e, em algumas variações, instalando sem perceber um programa malicioso no próprio celular.
Golpe do leilão. Anúncios na internet oferecem produtos por preços bons demais para serem verdade. Depois do pagamento, o produto nunca chega, e o vendedor simplesmente some.
Fica evidente, olhando a lista, que o problema não é falta de informação circulando por aí — é a velocidade com que esses golpes se reinventam, sempre um passo à frente da capacidade do sistema de identificar, investigar e responsabilizar quem está por trás deles.
Da redação, atualizado em 29/07/2026, às 01h05














