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Advogado aposta R$ 5 bi, perde R$ 163 mi e processa bet

Para Entender Rapidamente O advogado Willer Tomaz apostou cerca de R$ 5 bilhões em 2025, movimentando R$ 10 bilhões entre ganhos e perdas só na Blaze, e agora pede na Justiça a devolução de R$ 163 milhões perdidos, alegando vício em jogos. Segundo o processo, a casa de apostas teria dispensado a exigência de reconhecimento facial nos saques dele — obrigação prevista na Portaria SPA/MF 722/2024 — e concedido bônus de fidelidade vedado pelo art. 29 da Lei 14.790/2023, mesmo após pedidos de autoexclusão. Três dias antes de protocolar a ação, Willer foi apontado por relatório da Polícia Federal como suposto “hub financeiro” de investigados na chamada Máfia do INSS — apuração ainda em curso, sem qualquer condenação.

O advogado Willer Tomaz apostou quase R$ 5 bilhões em 2025 em jogos on-line. Em apenas uma casa, a Blaze, movimentou R$ 10 bilhões entre ganhos e perdas. No mês passado, procurou a Justiça para exigir que a plataforma devolva o dinheiro, alegando ser viciado em jogos e acusando a empresa de burlar regras para lucrar com sua suposta compulsão.

Em um ano, Willer perdeu R$ 163 milhões para a casa de apostas — valor equivalente à metade do lucro que a Blaze registrou ter enviado para a Ilha de Man, paraíso fiscal. Segundo o processo, boa parte das transações ocorria em desacordo com a regulamentação federal, por combinado entre ele e a empresa.

Em relatório da Polícia Federal que embasou operação realizada em 4 de agosto, Willer foi apontado como suposto “hub financeiro, patrimonial e logístico” de investigados na chamada Máfia do INSS — apuração que segue em curso, sem qualquer condenação até o momento.

Três dias antes dessa operação, o advogado já havia ingressado com ação contra a Blaze na 44ª Vara Cível de São Paulo, pedindo reparação pelas perdas de R$ 163 milhões em apostas on-line ao longo de um ano. No processo, ao qual a coluna teve acesso, Willer mostra que a relação continuada o levou a uma das escalas mais altas do programa de fidelidade da Blaze: o nível 171.

Apostas durante viagem com Flávio Bolsonaro

Willer apostava durante períodos relativamente curtos do dia, mas sempre em valores fora da realidade de um brasileiro médio. No dia 29 de julho, por exemplo, jogou das 2h às 4h — nesse intervalo, fez 11 depósitos de R$ 100 mil cada, e perdeu tudo após centenas de giros de roleta com apostas sempre acima de R$ 50 mil.

A rotina seguiu em 2026. Na manhã de 19 de janeiro, depositou R$ 500 mil na Blaze e, depois de meia hora jogando on-line, sacou R$ 1 milhão fracionado em dez vezes. À tarde, ganhou um bônus de fidelidade de R$ 325 mil — proibido pela legislação — que gastou em cinco minutos. À noite, o lucro da manhã virou pó, com perdas de R$ 725 mil.

Naquele mesmo dia, Willer voou de volta dos Estados Unidos ao Brasil, dando carona ao senador Flávio Bolsonaro (PL) em seu jatinho. A relação próxima entre os dois virou assunto nacional nas últimas semanas, com notícias de que Flávio ficou hospedado em apartamento de Willer em São Paulo, fez a festa de aniversário da filha numa casa do advogado em Angra dos Reis (RJ), e que os dois viajaram juntos ao exterior cinco vezes em 2025.

Atendimento VIP

Depois de comprovar renda enviando extratos de suas contas bancárias — que mostravam repasses milionários de seus escritórios de advocacia e de uma emissora de televisão maranhense —, em 2023, antes da regulamentação entrar em vigor, Willer passou a receber atendimento VIP na Blaze. Chegou a ter um funcionário holandês da própria empresa dedicado a atendê-lo pelo WhatsApp.

Conversas anexadas aos autos, na tentativa de provar que a casa de apostas agiu de forma imprudente, mostram o advogado irritado por precisar fazer reconhecimento facial cada vez que desejava sacar R$ 100 mil. “Todos os saques estão pedindo reconhecimento facial. Isso dificulta muito, amigo”, reclamou em janeiro de 2025. Informado de que se tratava de imposição da nova regulação federal, protestou: “meu Deus. Então aumenta o limite para saque, para R$ 500 mil por saque. Senão irá inviabilizar o tamanho do meu jogo. Esse reconhecimento facial está demorando até um minuto.”

O concierge logo voltou com solução que a própria regulamentação, recém-implementada, já proibia: “você não vai mais ser amolado com o reconhecimento facial, então você pode fazer quantos pedidos [de saque] quiser.” A exigência de reconhecimento facial em saques é obrigação prevista na Portaria SPA/MF 722/2024, que disciplina os requisitos técnicos de segurança dos sistemas de apostas.

Willer usava como argumento, para seus pedidos, ser fonte constante de receita para a plataforma: “duvido que exista alguém no mundo que tenha te dado mais lucro do que eu. Acho que nem mesmo meu amigo Njr”, escreveu ao concierge, em provável referência a Neymar Jr, garoto-propaganda da Blaze. Ele também queria linha de crédito como a que tinha em Las Vegas: “as autoridades reguladoras estão me questionando, assim como os bancos. Existe alguma solução? Talvez criar uma linha de crédito para fazer uma única transação mensal? Assim como faço com os cassinos em Las Vegas. Tenho uma grande linha de crédito com cassinos como o WYNN e outros”, explicou.

R$ 10 bilhões em um ano

Quando o ritmo da jogatina diminuiu, a partir da primeira semana de março, o concierge notou e quis saber por quê. Willer explicou que estava incomodado com a demora da Blaze em liberar seus saques, e que havia se assustado com o relatório sobre a atividade de sua própria conta. “Os números são extremamente altos, tanto em termos de movimentação quanto de perdas. Considerando o nível de atividade da minha conta, eu esperava, na verdade, algum tipo de verificação ou sugestão relacionada ao jogo responsável por parte da plataforma”, reclamou, em meados de março deste ano.

O relatório mostra que Willer ganhou R$ 4,8 bilhões em jogos de cassino em 2025, e perdeu R$ 4,963 bilhões — resultado líquido de R$ 163 milhões negativos. Em apostas esportivas, teve lucro de R$ 39 mil.

Do processo ao alegado vício

Quatro dias depois de receber o relatório mostrando que perdia muito mais do que ganhava — os depósitos dele em 2025 somaram R$ 300 milhões, e os saques, R$ 137 milhões —, Willer já tinha processo pronto contra a Blaze.

Antes de protocolá-lo, procurou a empresa para lembrar do risco de exposição pública da disputa, e oferecer acordo pelo qual a Blaze devolveria 70% de tudo o que ele havia perdido. “O caso é baseado na forma como o sistema efetivamente funcionava na prática — especialmente na assimetria entre depósitos e saques, na retenção e reversão reiteradas de solicitações de saque, nos obstáculos operacionais que mantinham os recursos dentro da plataforma, nos incentivos vinculados às perdas e na ausência de medidas eficazes de jogo responsável, apesar do volume extremamente elevado de movimentações”, explicou Willer, recebendo do concierge a orientação de conversar diretamente com o jurídico da empresa.

Quando a ação foi de fato protocolada, em agosto — quatro meses depois —, surgiu elemento nunca tratado nos diálogos entre Willer e seu concierge: alegação de vício em apostas. “Não existe leitura possível desse padrão [de apostas] que não seja a de jogo patológico em grau extremo”, argumentou nos autos o ex-ministro Eugênio Aragão, sócio de Willer e seu advogado no processo.

Para sustentar essa alegação, Aragão anexou ao processo laudo assinado em julho pelo psiquiatra Diego Canelhas. O documento cita que Willer estava “iniciando tratamento”, e relata que o médico examinou “a documentação trazida pelo paciente referente ao volume de dinheiro em apostas”, cujos valores “falam por si só sem precisar de muito raciocínio”. Segundo o laudo: “paciente ainda referindo que, percebendo e vendo excessividade extrema, tentara lutar contra, tentando bloquear ou dar um fim em definitivo da plataforma, porém, nunca obtendo êxito, pois a plataforma dificulta e muito esse direito de o jogador ir e vir, provocando o jogador, ainda mais no caso de vício extremo do paciente referido de se libertar da plataforma, nunca conseguindo a verdadeira exclusão.”

Os autos, no entanto, não trazem registro de que Willer tenha se cadastrado no sistema federal de autoexclusão — sistema que, desde o fim do ano passado, impede que cidadãos cadastrados abram contas, façam depósitos, apostem, ou recebam publicidade segmentada das operadoras legais.

A suposta tentativa de autoexclusão

Aragão sustenta que Willer pediu à Blaze que bloqueasse sua conta, e não foi atendido pela plataforma. Para tanto, juntou dois prints de diálogos breves entre um perfil não identificado e o chat de atendimento da empresa, sem registro de data. “Quero que vcs bloqueiem o meu acesso a jogos. E parem de me enviar promoções estimulando apostas. Estou com problemas de saúde. Estou viciado. Já perdi o que tinha e o que não tinha”, diz uma das mensagens, atribuída por Aragão a Willer. Em outra conversa, também sem data: “não é e-mail. É mensagem no telefone. Com bônus e código de bônus, incentivando a jogar. E ainda está sendo possível jogar. Bloqueie em definitivo pfvr. Como vocês sabem, eu já tenho diagnóstico de ludopatia.”

De acordo com Aragão, Willer seguiu sendo alvo de publicidade dirigida da Blaze mesmo depois do pedido de exclusão. Para demonstrar isso ao juiz, juntou print de grupo de Telegram com 474 mil inscritos, no qual a Blaze divulga promoções para pessoas cadastradas, além de dois SMS oferecendo crédito recompensa de R$ 1 mil e giro diário com prêmios de até R$ 15 mil.

Se comprovadas, essas condutas esbarrariam diretamente na regulamentação em vigor: o artigo 29 da Lei 14.790/2023 já proíbe qualquer forma de bônus ou vantagem prévia destinada a incentivar apostas, e a Portaria SPA/MF 1.231/2024 exige que operadores mantenham mecanismo efetivo de autoexclusão, com bloqueio real de acesso e comunicações para quem já solicitou sair da plataforma.

As outras conexões de Willer com o setor de apostas

Willer também trabalha diretamente com apostas esportivas. Como já mostrou esta coluna em reportagens anteriores, ele é beneficiário final da RioPag, empresa que recebeu da gestão de Cláudio Castro (PL) exclusividade na intermediação de pagamentos entre apostadores e casas de aposta licenciadas pelo estado do Rio — sendo o único acionista conhecido do fundo que investe na empresa-mãe da RioPag.

Ele também atua diretamente como advogado da RioPag, e seu escritório, até pelo menos o mês passado, patrocinava a Aposta Legal, associação de casas de apostas presidida por um funcionário do próprio escritório — o mesmo que administra a cota de Willer no jatinho que também pertenceu a Daniel Vorcaro.

O que diz Willer Tomaz

Em nota enviada à imprensa, o advogado afirmou que a divulgação de números bilionários o prejudica: “é falsa a informação de que o advogado Willer Tomaz movimentou R$ 6 bilhões em apostas. As cifras reais estão indicadas em processo judicial, cujo valor da causa foi estipulado em R$ 20 milhões. É importante destacar que essa cifra corresponde a uma relação de consumo de 4 anos. A divulgação de números inflados e fantasiosos tem causado sérios danos à imagem e às atividades profissionais do advogado.”

Para entender os termos

  • Autoexclusão (Portaria SPA/MF 1.231/2024 e 2.579/2025): mecanismo que permite ao apostador solicitar bloqueio voluntário de acesso a apostas, com dever do operador de impedir novos depósitos, apostas e publicidade direcionada.
  • Art. 29, Lei 14.790/2023: proíbe qualquer forma de adiantamento, bônus ou vantagem prévia oferecida para incentivar apostas.
  • Reconhecimento facial com prova de vida (Portaria SPA/MF 722/2024): exigência técnica de segurança para operações sensíveis, como saques, dentro do sistema regulado de apostas.
  • Ludopatia: termo médico para o transtorno do jogo, reconhecido como condição de saúde mental caracterizada por padrão compulsivo e recorrente de apostas.

Por que isso importa

O caso reúne, num único processo, duas discussões que raramente aparecem juntas: até que ponto uma empresa de apostas pode ser responsabilizada por afrouxar suas próprias regras de segurança para reter um cliente extremamente lucrativo, e se alguém que movimentou R$ 10 bilhões em apostas ao longo de um ano pode, ao mesmo tempo, alegar em juízo que não conseguia controlar o próprio comportamento. As mensagens anexadas ao processo — em que o próprio Willer pede aumento de limite de saque, reclama da demora do reconhecimento facial e cita sua “linha de crédito” em cassinos de Las Vegas como parâmetro de comparação — descrevem alguém plenamente consciente do volume envolvido, o que torna mais complexa a construção jurídica de que a plataforma teria se aproveitado de vulnerabilidade que ele mesmo não percebia.

Ao mesmo tempo, se as alegações sobre dispensa do reconhecimento facial e manutenção de publicidade após pedido de autoexclusão forem comprovadas, o caso expõe falha concreta no sistema regulatório que a Lei 14.790/2023 e suas portarias complementares já deveriam garantir: regras de proteção ao apostador que, no papel, existem para conter justamente esse tipo de escalada — mas que, na prática relatada pelo processo, teriam sido afrouxadas exatamente para o cliente que mais movimentava dinheiro na plataforma. A conexão do caso com a investigação da Máfia do INSS, e com a proximidade de Willer a figuras como o senador Flávio Bolsonaro, ainda em apuração, adiciona camada extra de escrutínio público a um processo que, isoladamente, já levantaria questões relevantes sobre os limites da responsabilidade das casas de apostas no Brasil.

O conteúdo tem finalidade informativa e não substitui orientação jurídica individualizada, porque situações semelhantes podem produzir respostas diferentes conforme os fatos e documentos do caso.

Da redação, postado em 30 de setembro de 2026, às 14h27. Matéria revisado pelo Editor André Luiz Guimarães, revisão jurídica da Dra. Mariana Rodrigues Valle Guimarães, inscrita na OAB/RJ 205702.

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