Para entender rápido: todos os seis principais candidatos colocam o fim das filas do SUS como prioridade. Quase todos propõem prontuário digital único e fila organizada pela gravidade do caso, não pela ordem de chegada. A diferença está em quem atende: Lula fortalece a rede pública com apoio pago da rede privada; Flávio Bolsonaro e Romeu Zema dão papel maior aos hospitais particulares; Augusto Cury e Renan Santos apostam pesado em telemedicina e inteligência artificial; Ronaldo Caiado foca em prazos para câncer, infarto e AVC.
Raramente os candidatos concordaram tanto quanto na saúde. O diagnóstico é o mesmo: o paciente espera demais por consulta com especialista, exame e cirurgia. As soluções, porém, mostram visões diferentes sobre o tamanho do Estado e o papel do setor privado.
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Augusto Cury (Avante) quer transformar o Brasil na maior telemedicina do mundo, resolvendo cerca de 80% das consultas básicas por atendimento digital, com meta de atender em até 30 minutos. Uma triagem por inteligência artificial priorizaria os casos graves e liberaria vagas de especialistas. Para quem não tem internet, haveria pontos de acesso assistido em postos, escolas e centros comunitários. O plano cria ainda uma rede nacional de prevenção do câncer e um Programa Nacional de Saúde Mental, com foco em ansiedade e prevenção do suicídio.
Flávio Bolsonaro (PL) chama seu pacote de “Plano Real da Saúde”. Propõe um prontuário eletrônico único ligado ao CPF, integrado entre rede pública e privada, e agendamento por inteligência artificial na primeira vaga livre. O SUS contrataria clínicas e hospitais particulares nos horários ociosos. O plano prevê entrega de remédios em casa para idosos, doentes crônicos e pessoas com deficiência, correção da tabela de pagamentos do SUS, produção nacional de vacinas e telessaúde.
Lula (PT) quer ampliar o programa “Agora Tem Especialistas”, com mutirões e fila única digital ordenada pela gravidade. Promete manter a Farmácia Popular gratuita e incluir exames nela. O histórico do paciente seria unificado, com consulta e exame marcados pelo celular. O plano amplia o Mais Médicos, busca recuperar a cobertura vacinal e estruturar a rede contra o câncer. Prevê parcerias pagas com a rede privada para reduzir filas e produção nacional de medicamentos.
Renan Santos (Missão) propõe o “SUS Fila Zero”, com fila ordenada pelo risco clínico de cada paciente. Quer um sistema nacional de telemedicina e diagnóstico com inteligência artificial e um prontuário eletrônico que conecte postos, hospitais e farmácias. A meta é resolver 80% dos casos nos postos de saúde. Os repasses aos municípios dependeriam do desempenho.
Romeu Zema (Novo) quer contratar a capacidade ociosa de clínicas e hospitais privados para zerar as filas, com metas públicas. Propõe expandir hospitais e UPAs por concessões, parcerias público-privadas e Organizações Sociais. Também quer reduzir exigências da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para permitir planos de saúde mais baratos, com cobertura parcial e maior divisão de custos com o paciente.
Ronaldo Caiado (PSD), que é médico, quer uma fila por gravidade com prazo e acompanhamento de cada paciente. A meta é cortar pela metade o tempo de espera nas regiões mais críticas até 2030. Propõe uma “via rápida do câncer”, com um relógio digital para fazer valer os prazos já previstos em lei. Para infarto e AVC, prevê atendimento especializado 24 horas por região e eletrocardiograma nas ambulâncias do SAMU. Os postos buscariam ativamente pacientes com hipertensão e diabetes para evitar internações.
Demais candidatos. Edmilson Costa (PCB) e Rui Costa Pimenta (PCO) propõem estatizar toda a saúde, incluindo o setor privado. Hertz Dias (PSTU) quer acabar com a gestão privada no SUS. Clariana Barão (DC) propõe inteligência artificial e telemedicina.
Entenda os termos
- Atenção primária: o primeiro nível de atendimento, feito nos postos de saúde e pelas equipes de Saúde da Família.
- Regulação: o sistema que distribui as vagas de consultas, exames e cirurgias. Fila “por risco” significa que casos mais graves passam na frente.
- Prontuário eletrônico: o histórico de saúde do paciente em formato digital, com exames, receitas e atendimentos.
- Organização Social (OS): entidade privada sem fins lucrativos contratada para administrar hospitais e unidades públicas.
- Tabela SUS: a lista de valores que o SUS paga aos hospitais e clínicas por cada procedimento.
- Plano segmentado: plano de saúde que cobre apenas parte dos serviços, como só consultas e exames, com preço menor.
Por que isso importa
A saúde é “direito de todos e dever do Estado” (artigo 196 da Constituição). A iniciativa privada pode participar do SUS, mas de forma complementar, com preferência para entidades sem fins lucrativos (artigo 199). Por isso, quanto maior o papel dos hospitais particulares, maior o debate sobre esse limite. Várias promessas já têm base legal: a telessaúde é regulada desde 2022, e as leis já garantem ao paciente com câncer diagnóstico em até 30 dias e início do tratamento em até 60. Na prática, cumprir esses prazos é o desafio. Um prontuário único ligado ao CPF precisa respeitar a Lei Geral de Proteção de Dados, que trata informações de saúde como dados sensíveis. Já planos mais baratos com menos cobertura exigiriam mudar a Lei dos Planos de Saúde e interessam diretamente a quem é consumidor desses serviços.
O conteúdo tem finalidade informativa e não substitui orientação jurídica individualizada, porque situações semelhantes podem produzir respostas diferentes conforme os fatos e documentos do caso.
Da redação, postado em 27 de setembro de 2026, às 15h32. Matéria revisado pelo Editor André Luiz Guimarães, revisão jurídica da Dra. Mariana Rodrigues Valle Guimarães, inscrita na OAB/RJ 205702.
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