Um recurso chega ao Supremo Tribunal Federal. Antes, um servidor precisava ler a peça inteira e descobrir, manualmente, se aquele caso se encaixava em algum tema de repercussão geral já reconhecido pela Corte — uma tarefa que consumia, em média, 40 minutos por processo. Hoje, o sistema batizado de Victor faz essa mesma triagem em cinco segundos. Foi justamente essa diferença de tempo que chamou a atenção do Banco Mundial, que citou a ferramenta do STF como exemplo de aplicação eficiente de inteligência artificial no setor público.
O reconhecimento aparece no “Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2026: A Promessa da Inteligência Artificial”, divulgado no início de agosto. O documento destaca especificamente essa redução de 40 minutos para cinco segundos como ganho concreto de eficiência — vale notar que esse ganho corresponde a uma etapa inicial e específica da análise processual, agora automatizada, enquanto todas as demais etapas continuam dependendo de atuação humana. Não é um robô decidindo processos; é um robô decidindo para onde encaminhar cada processo mais rápido.
O que o Banco Mundial realmente elogiou
No relatório, a experiência do STF entra como ilustração de um argumento mais amplo: o Banco Mundial ressalta a importância de documentos digitalizados e estruturados para que a inteligência artificial consiga, de fato, funcionar bem dentro do poder público. O Victor aparece como exemplo prático de uso de IA em arquivos jurídicos — um caso concreto de que a promessa da tecnologia não precisa ficar só no discurso.
Para o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, esse reconhecimento internacional confirma que é possível incorporar inovação tecnológica ao Judiciário com responsabilidade e propósito público. “A inteligência artificial deve estar a serviço de uma Justiça mais eficiente, capaz de reduzir tarefas repetitivas e permitir que magistrados e servidores concentrem seus esforços naquilo que exige análise, interpretação e sensibilidade humana”, afirmou. E fez questão de deixar uma linha bem marcada entre o que a máquina pode fazer e o que continua sendo função humana: “a tecnologia pode apoiar a decisão, mas a responsabilidade de julgar permanece, e deve permanecer, com as pessoas.”
Como o Victor funciona, na prática
Desenvolvido em parceria entre o STF e a Universidade de Brasília, o sistema entrou em operação em 2018 e funciona, essencialmente, como um classificador. Ele lê a peça recursal e sinaliza uma possível correspondência com temas de repercussão geral já existentes — mas não decide o enquadramento do caso. Essa decisão continua sendo humana; o Victor só aponta o caminho mais provável, poupando o trabalho manual de garimpar essa correspondência do zero.
Desde então, a ferramenta passou por sucessivas atualizações conduzidas pelas equipes do STF, e segue recebendo ajustes para acompanhar a evolução dos sistemas e dos fluxos de trabalho internos da Corte.
Por que o nome “Victor”
O projeto homenageia o ministro Victor Nunes Leal, que integrou o STF entre 1960 e 1969 e morreu anos depois, mas deixou uma marca duradoura na forma como a Corte organiza seu próprio entendimento: foi ele o principal idealizador das súmulas — os enunciados que sistematizam a jurisprudência consolidada do Tribunal e orientam julgamentos futuros. Batizar a primeira ferramenta de IA do STF com o nome de quem organizou a jurisprudência antes mesmo de existir computador para isso é, no mínimo, um gesto simbólico bem calculado.
O Victor não ficou sozinho: o que veio depois dele
O sucesso do Victor abriu caminho para uma família inteira de ferramentas de IA dentro do STF. Em 2022, surgiu a RAFA 2030, voltada a classificar processos de acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU.
Em 2023, entrou em operação a VitorIA, que trabalha de um jeito diferente do Victor original: em vez de verificar se um processo novo corresponde a um tema já existente, ela usa similaridade textual para agrupar processos que guardam relação entre si — ajudando a Corte a localizar casos que podem receber tratamento conjunto, e até apontar possíveis novos temas para futura repercussão geral.
A evolução mais recente é a plataforma MARIA, um pacote mais amplo de funcionalidades de IA voltado para otimizar tanto a análise processual quanto a produção de documentos dentro da Corte. Entre os recursos já disponíveis estão revisão gramatical e textual, consulta de precedentes, geração de ementas e relatórios, e classificação automática de assuntos. Projetada em módulos expansíveis, a MARIA deve ganhar novas funcionalidades ainda neste semestre — e já há, em paralelo, uma nova ferramenta de indexação, pesquisa e validação por IA voltada especificamente à jurisprudência do Tribunal em desenvolvimento.
“O Victor foi a porta de entrada”
Para o secretário-geral de Tecnologia e Inovação do STF, Júlio Gomides, o reconhecimento do Banco Mundial ajuda a validar externamente algo que a Corte já sabia internamente: que foi pioneira nesse tipo de aplicação. “O Supremo foi pioneiro com o Victor, mas ele foi a porta de entrada. Estamos construindo uma arquitetura de inteligência artificial muito robusta”, resume.
Segundo Gomides, a orientação que guia todas essas iniciativas desde o início é sempre a mesma: reservar à inteligência artificial as tarefas mecânicas e repetitivas, onde ela consegue oferecer informação mais precisa e rápida — mantendo a interpretação jurídica, a avaliação das particularidades de cada caso e a decisão final integralmente sob responsabilidade humana.
O detalhe que talvez mereça mais atenção nessa história toda não é a velocidade — 40 minutos para cinco segundos é, sem dúvida, impressionante —, mas o limite que o próprio STF insiste em repetir a cada nova ferramenta: a máquina classifica, agrupa, sinaliza e sugere; quem julga continua sendo gente. Numa época em que “IA decide processos” vira manchete alarmista com facilidade, vale reconhecer quando uma instituição é explícita sobre onde exatamente termina o trabalho do algoritmo e começa a responsabilidade humana.
Da redação, postado em 19/08/2026, às 23h04. Fonte: STF












