Home / Sapiências Indica / Abusador não tem cara: livro expõe por que ainda duvidam da vítima

Abusador não tem cara: livro expõe por que ainda duvidam da vítima

Em “Você Não Está Sozinha”, a jornalista Cristina Fibe mostra que o agressor pode ser o vizinho, o intelectual respeitado ou o “feministo”.

Por Editor André L. Guimarães| Revisão jurídica: Dra. Mariana Rodrigues Valle Guimarães, OAB/RJ 205.702

Publicado em 05 de novembro de 2026, às 23h20 | Atualizado em 05/11/2026.

Em situação de violência: ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou 190 (Polícia Militar). A medida protetiva de urgência pode ser pedida na delegacia, na Defensoria Pública, ao Ministério Público ou diretamente ao juiz.

Resposta curta: Para a autora, não existe perfil de abusador. Ele pode ser um parente, um homem célebre ou alguém que se diz aliado das mulheres. E é justamente quando o agressor foge do estereótipo que a palavra da vítima mais é posta em dúvida.

Uma mulher está sozinha numa floresta. Pode cruzar com um urso ou com um homem. Qual dos dois ela prefere encontrar?

A pergunta, lançada por uma tiktoker, teve das mulheres uma resposta em peso: o urso, óbvio. As justificativas iam de “o máximo que o urso pode fazer é me matar” a “pelo menos as pessoas iam acreditar em mim se eu dissesse que fui atacada por um urso”.

Não por acaso, a jornalista Cristina Fibe resgata esse debate viral de 2024 em “Você Não Está Sozinha”, lançado em São Paulo na quinta-feira (5). “Os homens não entendem que a maioria de nós prefere ser morta e dilacerada por um urso, ou ter alguma chance de correr para escapar dele, do que lidar com o inegociável, que é ser dominada, estuprada e dilacerada por um ser humano.”

Por que isso importa

O exemplo é extremo, sim. Mas descreve com precisão um mundo que não dá trégua às mulheres, expostas a uma engrenagem de violências que vai da física à psicológica e que, tantas vezes, se sobrepõe.

Monstros ou homens comuns?

A autora retoma um noticiário que, só de 2018 para cá, relatou casos como estes:

  • o homem que carregou uma mulher desacordada por três quilômetros para estuprá-la;
  • o médico anestesista que violentou uma mãe que tinha acabado de dar à luz;
  • o ex-jogador Robinho debochando do estupro coletivo do qual participou;
  • uma recém-nascida morta aos 27 dias de vida, com lesões nas partes íntimas. O pai foi preso no enterro.

Verdadeiros monstros? É aí que Fibe provoca. Tratá-los como aberrações isoladas, diz ela, esconde que são homens comuns, criados por uma cultura patriarcal que naturaliza o domínio sobre o corpo feminino.

A imagem do monstro tem ainda outro efeito: enfraquece a voz da mulher quando a violência é velada e o agressor não tem cara de algoz.

Quando ninguém quer acreditar

“Há uma resistência enorme em dar crédito à palavra da vítima quando o abusador não se encaixa no estereótipo do homem violento. Ai de quem tentar denunciar um sujeito carismático, célebre, intelectual respeitado”, afirma. O mais provável, segundo ela, é que “a mulher seja atacada sem piedade e que o homem seja defendido”.

Como sociedade, temos um bloqueio em aceitar o que as estatísticas escancaram, diz a autora. “O abusador não tem endereço nem cara.” Pode ser um parente, o advogado respeitado, o autodeclarado “feministo”.

“Quando ele vem com simpatia e carisma, ninguém quer acreditar. O mesmo serve para a denunciante. Se ela não atender aos requisitos da vítima ideal, é muito provável que a sua palavra seja colocada em dúvida e que ela seja culpabilizada.”

O livro lembra também a sugestão da primeira-dama Janja de criar abrigos só para homens solteiros durante as enchentes que arrasaram o Rio Grande do Sul em 2024. A proposta ignorava que o perigo mora dentro de casa.

Os primeiros presos por abusos nesses abrigos eram homens “de família”, que já violentavam parceiras e crianças. São dados que repetem um padrão da violência de gênero.

Fé, impunidade e o banco dos réus

O livro nasce das colunas semanais que Fibe escreveu de 2023 a 2026, primeiro no UOL, depois no canal Amado Mundo, costuradas por reflexões inéditas.

A autora foi uma das primeiras jornalistas a revelar os abusos sexuais cometidos por João de Deus. Em seus textos, mostra como o espírita cumpre pena em sua mansão e segue faturando com fazendas, com o centro espiritual ainda aberto e com a venda internacional de “camas de cristal” a R$ 15.600 cada.

As camas vêm com luzes coloridas e, segundo a crença divulgada, servem para “alinhar as energias” de quem se deita nelas.

Abuso da fé e impunidade institucional atravessam o livro, ao lado do aborto legal e de violências médica, doméstica, sexual e também judicial. Esta última aparece num episódio de 2018, na Irlanda: no tribunal, uma advogada argumentou que a vítima usava uma “calcinha fio dental com frente de renda”, como se isso invalidasse a acusação de estupro.

A “cultura da vista grossa”

Uma seção inteira trata da “misoginia na cultura e na mídia”. Ali, Fibe aponta uma rede de conivência que normaliza abusos e protege agressores.

Ela contesta, por exemplo, o mito de que homens acusados de violência sofrem um “cancelamento” definitivo. O que funciona na prática, diz, é a “cultura da vista grossa”.

Quem denuncia enfrenta linchamento digital e desgaste psicológico. Já homens violentos mantêm prestígio, contratos e seguidores. A autora cita Cauã Reymond, cujos contratos publicitários milionários e papéis de destaque na TV seguiram intactos após denúncias de violência psicológica e queixas de machismo nos bastidores.

Novas formas, velho problema

Fibe alerta que os mecanismos misóginos se sofisticam para sobreviver. “Precisamos nos preparar para isso: quais são e serão as novas formas de violência, depois que as praticadas hoje não forem mais toleradas?”

Ela faz questão de frisar que a violência de gênero não tem lado político. Se o debate público associa abusadores à extrema direita, “já que a legitimação da misoginia é uma característica desses líderes”, a experiência pede atenção “a abusadores que fogem desse estereótipo, têm letramento de gênero e podem fazer uso nocivo dele, para nos manipular e não para nos dar a mão nessa batalha”.

Escrito também por uma mãe

A mesma autora que investiga a radicalização da machosfera digital é mãe de um menino de 11 anos. Talvez o livro não existisse de outra forma.

“Mudou completamente a minha trajetória profissional, porque fui me letrar também para aprender a criar um homem que não seja violento.”

Fibe percebe um inchaço do ressentimento masculino “conforme eles perdem os espaços de privilégio e poder”. Mas acredita que essa onda tem um teto.

“Não é possível que os homens entrem em crise de masculinidade porque estamos dizendo a eles que não podem mais nos subjugar e violentar. Os homens que não são violentos tendem a se adaptar melhor à nossa luta: é muito mais confortável construir um espaço em que não precisem ser a única fonte de força, ficar se provando o tempo inteiro.”

Serviço: “Você Não Está Sozinha”, de Cristina Fibe. Compre aqui.

Para entender os termos

  • Violência de gênero: agressão praticada contra alguém por ser mulher, seja física, sexual, psicológica ou moral.
  • Cultura patriarcal: modo de organizar a sociedade que coloca os homens em posição de poder sobre as mulheres.
  • Misoginia: desprezo, aversão ou preconceito contra as mulheres.
  • Vítima ideal: imagem do que a sociedade espera de quem denuncia, usada para desacreditar quem não se encaixa nela.
  • Machosfera: conjunto de grupos e perfis na internet que difundem discursos de ódio e domínio sobre as mulheres.
  • Letramento de gênero: conhecimento sobre desigualdade entre homens e mulheres e sobre como ela se manifesta.

Guarde isto: O abusador não tem rosto definido: pode ser alguém próximo, admirado ou que se diz aliado. Duvidar da vítima porque o agressor parece “boa pessoa” é uma das formas de a violência continuar.

Precisa de ajuda? Ligue 180 ou 190. A medida protetiva de urgência pode ser pedida na delegacia, na Defensoria Pública, ao Ministério Público ou ao juiz.

Este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica para o seu caso.

Fontes

Edição Digital

Clique na Imagem e confira os PDFs
Clique na Imagem
PARTICIPE, GRUPO OFICIAL NO WHATSAPP

Apoio:

Clique na Imagem

Apoio:

Clique na Imagem

Publicidade:

Marketing Jurídico para Advogados

Publicidade:

Clique na Imagem

Apoio:

Clique na Imagem

Apoio:

Clique na Imagem