Cento e vinte e sete casais oficializaram a própria união na última quinta-feira (3), no Clube Municipal do Nobre, em Paulista (PE). A celebração foi promovida pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco, através do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) Paulista, em parceria com a Prefeitura do município, os três Cartórios de Registro Civil das Pessoas Naturais da cidade e o apoio do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec).
Um sonho antigo formalizado de uma vez
Para muitos desses casais, a cerimônia representou a chance de oficializar civilmente relações que já duravam anos — em alguns casos, décadas. A juíza Luzicleide Maria Muniz Vasconcelos, coordenadora do Cejusc Paulista, resumiu o propósito da iniciativa: “a grande preocupação e a maior bandeira do Tribunal de Justiça é estar presente na sociedade, buscando o entendimento maior do sentido do cidadão. O casamento vai revestir de legalidade uma relação e vai gerar direitos previdenciários.”
A magistrada também apontou o motivo prático que costuma manter tantos casais fora do casamento formal, mesmo depois de anos de vida em comum: “muitas dessas pessoas já têm uma vida em casamento fático, mas, na maioria das vezes, as questões financeiras retiram delas a possibilidade de realizar o casamento oficial. Esse olhar do Judiciário junto com a parceria do Executivo traz essa possibilidade para que as pessoas possam legalizar e dar um revestimento legal àquela relação que já existe.”
Como o evento saiu do papel
A secretária de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos, Políticas sobre Drogas e Juventude de Paulista, Jeiely Santos, explicou que organizar um casamento comunitário desse porte exigiu mobilizar diferentes áreas da administração municipal: “a iniciativa nos foi solicitada pela Comarca de Paulista e, então, nos reunimos enquanto município. Cada secretaria, dentro da sua competência, contribuiu para a organização desse casamento comunitário, através da parceria com o Tribunal de Justiça e os cartórios.”
Segundo Anna Carla Vecchione, gestora do Cejusc Paulista, essa já foi a quinta edição do evento nesse formato. A primeira aconteceu ainda durante a pandemia, de forma inteiramente virtual, pela própria plataforma do TJPE. As edições seguintes passaram a ser presenciais, sempre em parceria com a Prefeitura, no Clube Municipal da cidade.
As histórias por trás dos números
Entre os 127 casais estava Clodoaldo Luiz da Costa, operador logístico de 34 anos, e Carla Vanessa, também de 34, juntos há dois anos. O casal soube da iniciativa pelo Cartório do Janga. “Eu fui ao cartório procurar saber, porque já estava querendo casar, e quando falaram que ia ter esse evento coletivo, nós participamos. É um sonho. Era o nosso objetivo”, contou Clodoaldo.
Ana Carolina Ramos, empreendedora moradora de Paulista, viveu a cerimônia como a realização de um desejo bem mais antigo. Ela e o marido, Leonardo da Costa Ribeiro, estão juntos há quase 21 anos e têm dois filhos, de 11 e 9 anos. Ana descobriu o casamento coletivo pelo Instagram: “eu soube do evento através do Instagram e disse: vamos, chegou o nosso momento. É o momento tão sonhado meu e dele também. Agora é a realização de um sonho. Foi uma ótima oportunidade. Oficializamos o nosso amor.” Leonardo, vendedor, comemorou da mesma forma: “estou muito feliz também. Agradeço muito pela oportunidade.”
O que vem a seguir
O calendário de casamentos coletivos do TJPE segue firme ainda em setembro. A próxima edição acontece pelo Cejusc Recife, no dia 16, às 10h, no auditório do Fórum Rodolfo Aureliano, reunindo novos casais para a oficialização civil de suas uniões. Já em Paulista, segundo Anna Carla Vecchione, a expectativa é de uma nova edição no primeiro semestre de 2027, mantendo a mesma parceria entre Cejusc, Nupemec, Prefeitura e cartórios do município.
Para entender os termos
- Cejusc (Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania): unidade do Judiciário voltada à conciliação, mediação e outras formas consensuais de resolver conflitos e ampliar acesso a serviços à população.
- Casamento fático: situação em que um casal vive como se estivesse casado, com convivência pública, contínua e duradoura, sem que a união tenha sido formalizada em cartório.
- Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais: órgão responsável por registrar atos civis como nascimento, casamento e óbito, com fé pública sobre esses registros.
- Nupemec: Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos, estrutura que apoia e coordena práticas de conciliação e mediação dentro do tribunal.
Por que isso importa
A própria juíza responsável pelo programa nomeou o problema real por trás desses mutirões: não é falta de vontade que mantém tantos casais fora do casamento formal depois de anos, às vezes décadas, de vida em comum — é o custo. Questões financeiras, nas palavras dela, “retiram a possibilidade” de oficializar uma relação que já existe de fato havia muito tempo, mesmo quando essa formalização significa acesso a direitos concretos, como benefícios previdenciários que dependem justamente desse reconhecimento legal.
O casamento coletivo resolve isso de forma pontual e bem-vinda — mas também expõe, por tabela, uma barreira estrutural que segue existindo fora desses mutirões: por que o simples ato de registrar legalmente uma união que já é pública e consolidada continua tendo um custo alto o suficiente para barrar famílias inteiras do acesso a direitos básicos? A festa em Paulista trouxe alegria genuína para 127 casais — Clodoaldo e Carla, Ana e Leonardo entre eles —, mas o problema de fundo que motivou a fila continua esperando solução permanente, não apenas edições especiais de tempos em tempos.
O conteúdo tem finalidade informativa e não substitui orientação jurídica individualizada, porque situações semelhantes podem produzir respostas diferentes conforme os fatos e documentos do caso.
Fonte: TJPE
Da redação, postado em 08 de setembro de 2026, às 11h43. Matéria revisado pelo Editor André Luiz Guimarães, revisão jurídica da Dra. Mariana Rodrigues Valle Guimarães, inscrita na OAB/RJ 205702.
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