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ESPECIAL — JUSTIÇA PARA TODOS – Uma explicação simples sobre um problema grande

O BRASIL QUE FAZ LEIS ÓTIMAS— e uma Justiça que deixa a desejar

Por que o país que criou leis admiradas no mundo inteiro ainda tem uma Justiça lenta, cara e desigual?

🤔  Antes de tudo: do que estamos falando?

Você já teve que esperar anos por uma decisão na Justiça? Já ouviu alguém dizer que ‘rico não vai preso’ ou que a lei só funciona para quem tem advogado caro? Pois é. A maioria dos brasileiros tem essa percepção — e os números dão razão a ela.

Mas aqui está a parte surpreendente: ao mesmo tempo, o Brasil tem leis que são elogiadas no mundo inteiro. Países da Europa, da América Latina e da África usam nossas leis como modelo. A ONU já premiou uma lei brasileira como uma das três melhores do planeta no que ela faz.

Então como um país que escreve leis tão boas tem uma Justiça tão ruim na prática? É sobre isso que vamos conversar aqui — em português claro, sem juridiquês.

💡 A ideia central deste texto:  O Brasil é campeão em criar boas leis. Mas criar lei e fazer a lei funcionar são duas coisas muito diferentes. E é aí que o país tropeça feio.

🏆  As leis brasileiras que o mundo admira

Pode parecer exagero, mas não é: o Brasil produziu, nos últimos 40 anos, algumas das leis mais modernas e humanas do planeta. Veja alguns exemplos:

👩 A Lei que protege mulheres em situação de violência

Lei Maria da Penha (2006): A ONU elegeu essa lei como uma das três melhores leis do mundo no combate à violência doméstica. Antes dela, uma mulher agredida em casa tinha pouquíssima proteção legal. A lei criou a possibilidade de o agressor ser afastado do lar imediatamente, sem precisar esperar meses por uma decisão judicial. Ela também reconheceu, pela primeira vez, que violência psicológica — xingamentos, humilhações, controle — é crime, não ‘briga de casal’.

👶 A lei que deu direitos às crianças

ECA — Estatuto da Criança e do Adolescente (1990): Antes dessa lei, crianças e adolescentes eram tratados pelo sistema como ‘menores’, quase como objetos da ação do Estado. O ECA mudou isso: passou a enxergar crianças como pessoas com direitos plenos. A UNICEF — o fundo da ONU que cuida das crianças no mundo — considera o ECA uma lei pioneira. Muitos países adaptaram suas legislações com base nele.

🛒 A lei que protege você quando compra algo

Código de Defesa do Consumidor — CDC (1990): Sabe quando você compra um produto com defeito e a loja é obrigada a trocar? Quando uma empresa de telefone precisa provar que você usou os dados que ela está cobrando, e não o contrário? Isso é o CDC funcionando. Esse código é elogiado na Europa e nas Américas por colocar o consumidor em posição de igualdade com as grandes empresas. Antes dele, o ‘o cliente tem sempre razão’ não passava de frase de efeito.

📋 A lei que obriga o governo a mostrar as cartas

Lei de Acesso à Informação — LAI (2011): Por essa lei, qualquer cidadão pode pedir ao governo federal, estadual ou municipal informações sobre o que os servidores públicos fazem e como o dinheiro público é gasto. E o governo é obrigado a responder. Uma organização internacional que avalia leis de transparência em mais de 130 países já colocou a LAI entre as 20 melhores do mundo. A lógica é simples: no Brasil, o padrão é que informação pública deve ser pública — e o sigilo precisa ser justificado.

💻 A lei que protege você na internet

Marco Civil da Internet (2014): Grandes veículos internacionais de tecnologia chamaram essa lei de ‘a Constituição da Internet’. Ela foi uma das primeiras do mundo a garantir que sua navegação online é privada, que nenhuma empresa pode te dar um serviço mais lento por ser de um partido ou religião diferente, e que você tem liberdade de expressão na rede. Os Estados Unidos ainda não têm nada equivalente.

🔒 A lei que protege seus dados pessoais

LGPD — Lei Geral de Proteção de Dados (2018): Sabe quando um aplicativo pede permissão para acessar seus contatos, sua câmera e sua localização? A LGPD estabelece regras rígidas para isso. Ela foi construída com base na lei europeia de proteção de dados — considerada a mais rigorosa do mundo — e coloca o Brasil no mesmo nível de exigência da União Europeia quando o assunto é privacidade digital.

🌍 Resumindo:  Quando se trata de escrever leis para proteger pessoas, o Brasil está entre os melhores do mundo. A ONU elogia, a Europa admira, países menores copiam. É um patrimônio real e concreto.

📉  Então por que a Justiça funciona tão mal?

Se as leis são tão boas, por que a maioria dos brasileiros sente que a Justiça não funciona para eles? Os números mostram que essa sensação é justificada. Veja o que pesquisas sérias revelam:

O que o mundo pensa da nossa Justiça

O World Justice Project — uma organização independente com sede em Washington que avalia o Estado de Direito em 142 países — publica todo ano um ranking. No relatório de 2024, o resultado do Brasil foi desanimador:

🌐  Posição geral do Brasil no ranking mundial: 80.º lugar entre 142 países

📊  Nota do Brasil (0 = péssimo, 1 = ótimo): 0,50 — abaixo da média mundial de 0,55

🌎  Na América Latina e Caribe: 17.º lugar entre 32 países

⚖️  Em Justiça Criminal (julgamentos, punições): 113.º lugar — nota 0,33

😟  Em imparcialidade do Judiciário criminal: 2.º PIOR do mundo — empatado com a Venezuela

⚠️ Atenção para este dado:  Quando perguntados se os juízes criminais brasileiros agem de forma imparcial — ou seja, sem favorecer um lado — o Brasil ficou empatado com a Venezuela no segundo pior lugar do planeta. Apenas a Venezuela está pior, e também com o mesmo índice.

O que os próprios brasileiros pensam

A FGV — Fundação Getulio Vargas, uma das mais respeitadas instituições de pesquisa do Brasil — acompanha há mais de 15 anos o quanto os brasileiros confiam na Justiça. Os resultados são preocupantes:

📅  Melhor momento histórico (2011): 47% dos brasileiros confiavam no Judiciário

📅  Pior momento recente (2017): apenas 24% confiavam no Judiciário

🏛️  Confiança no STF em 2017: apenas 24% — empatado com a Justiça comum

🐢  Percepção de lentidão: 81% acham a Justiça lenta ou muito lenta

💰  Percepção de custo: 81% acham que a Justiça é cara ou muito cara

🚪  Percepção de dificuldade: 73% acham que é difícil ou muito difícil de usar

Para colocar esses números em perspectiva: oito em cada dez brasileiros acham que a Justiça é lenta e cara. Isso não é pessimismo. É avaliação de quem já teve — ou viu alguém ter — que lidar com o sistema.

A pilha de processos que não para de crescer

O CNJ — Conselho Nacional de Justiça, que é o órgão responsável por fiscalizar a Justiça no Brasil — publica todo ano um relatório com os números do sistema. O mais recente, referente a 2024, mostra dois lados da moeda:

O lado bom: em 2024, os juízes brasileiros bateram todos os recordes. Foram mais de 44 milhões de processos resolvidos — 28% a mais do que no ano anterior. O presidente do CNJ, ministro Barroso, disse que os juízes brasileiros trabalham de quatro a cinco vezes mais do que a média europeia.

O lado ruim: mesmo com todo esse esforço, ainda há 80,6 milhões de processos esperando para ser julgados. São 80 milhões de situações — disputas, crimes, divórcios, cobranças, indenizações — que ainda não tiveram uma resposta definitiva da Justiça. E mais: cerca de 1,3 milhão de processos estão esperando há mais de 15 anos.

📂  Processos pendentes ao final de 2024: 80,6 milhões

🆕  Processos novos que chegaram em 2024: 39,4 milhões

✅  Processos resolvidos em 2024: 44,6 milhões — recorde histórico

⌛  Processos esperando há mais de 15 anos: cerca de 1,3 milhão

📉  Taxa de congestionamento: 64,3% dos processos ficam parados ao final do ano

🔎 O que isso significa na prática?  Imagine que você sofreu um acidente de carro há 10 anos por culpa de outra pessoa. Você entrou com processo. Até hoje não teve resultado. Isso não é ficção — é a realidade de muitos brasileiros. A Justiça melhora, mas o buraco ainda é enorme.

🧩  Por que isso acontece? Entendendo o paradoxo

Agora que você conhece os dois lados, a pergunta que fica é: como o mesmo país que cria leis elogiadas no mundo inteiro tem uma Justiça que não funciona direito? Aqui estão as razões principais, em linguagem direta:

1. Criar lei é fácil. Fazer funcionar é outra história.

Uma lei escrita num papel não resolve nada por si só. Para a Lei Maria da Penha funcionar, por exemplo, é preciso ter delegacias especializadas com pessoal treinado, casas de acolhimento para mulheres em risco, defensoras públicas disponíveis e juízes que levem os casos a sério — em todo o Brasil, não só nas capitais.

O problema é que escrever a lei é politicamente mais fácil (e mais barato) do que montar a estrutura para fazê-la funcionar. Então o Brasil ficou muito bom em escrever leis bonitas e relativamente ruim em construir o sistema que as executa.

2. A Justiça não é igual para todo mundo.

Essa é a reclamação mais antiga e mais persistente dos brasileiros — e os dados a confirmam. Quando um rico e um pobre cometem o mesmo crime, as chances de responderem da mesma forma são muito desiguais. Quem tem dinheiro para contratar bons advogados, recorre mais, demora mais para ser julgado e muitas vezes consegue prescrição — que é quando o crime ‘caduca’ por demora.

Essa percepção de Justiça seletiva é provavelmente o fator que mais corrói a confiança da população no sistema. Não é uma desconfiança nascida do nada: é uma conclusão tirada da observação do dia a dia.

3. O Brasil cria leis demais e pune de menos.

O país aprova dezenas de novas leis por mês. Estados e municípios somam centenas de normas a cada ano. Mas quando uma lei não é cumprida e quase ninguém é responsabilizado, ela vai perdendo sua força. A população aprende que a lei existe ‘no papel’, mas não na vida real. Isso gera uma cultura em que a lei é vista como sugestão, não como limite.

4. A Justiça virou palco político.

Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal — a corte mais alta do Brasil, equivalente à Suprema Corte dos Estados Unidos — esteve com frequência no centro de decisões com forte carga política. Independentemente de se essas decisões foram certas ou erradas, o resultado foi o mesmo: a imagem de que a Justiça não é imparcial se aprofundou na cabeça dos brasileiros.

E quando as pessoas sentem que o árbitro do jogo está jogando junto com um dos times, o jogo perde o sentido.

💬 Em resumo:  O problema do Brasil não é falta de lei boa. É falta de lei cumprida. E de Justiça que chegue a todos da mesma forma, com a mesma velocidade e o mesmo rigor — independentemente de quem você é ou de quanto dinheiro você tem.

🌱  Tem saída? O que pode mudar?

Sim, tem saída. E há sinais de melhora. Em 2024, o Judiciário resolveu mais processos do que em qualquer outro ano da história. A taxa de processos parados caiu para o menor nível em 16 anos. Esses são progressos reais.

Mas números de produtividade não resolvem a questão central: a Justiça precisa ser igual para todos. Rápida para todos. Acessível para todos — e não apenas para quem pode pagar um bom advogado ou tem tempo para esperar uma década por um resultado.

O desafio do Brasil não é mais escrever boas leis — nisso o país é excelente. O desafio é ter coragem de aplicar essas leis da mesma forma para o pedreiro e para o empresário, para o pobre e para o poderoso, para a vítima e para o réu com conexões políticas.

Quando isso acontecer, o Brasil não vai apenas ter leis admiradas no mundo. Vai ter uma Justiça que os brasileiros também admiram — e, mais importante, em que confiam.

📌 Para não esquecer:  O Brasil tem leis excelentes. A Lei Maria da Penha é elogiada pela ONU. O ECA foi pioneiro no mundo. O CDC protege o consumidor melhor do que em muitos países ricos. Isso é motivo de orgulho. Mas enquanto a Justiça demorar 15 anos para resolver um caso, custar caro e funcionar de forma diferente para ricos e pobres, essas leis continuarão sendo promessas — não realidade.

FONTES E DADOS UTILIZADOS NESTE TEXTO

• World Justice Project — WJP Rule of Law Index 2024 (worldjusticeproject.org)

• Conselho Nacional de Justiça (CNJ) — Justiça em Números 2025 (ano-base 2024)

• FGV Direito SP — Índice de Confiança na Justiça Brasileira (ICJBrasil), série histórica 2009–2024

• RTI Rating — Global Right to Information Rating 2024 (rti-rating.org) • ONU Mulheres — Relatório de reconhecimento da Lei Maria da Penha (201

Da Redação

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