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A família que a lei ainda não aprendeu a ver

Amor que não cabe em formulário, pets que não cabem em inventário, parentes que trabalham sem carteira — e uma legislação que corre, quase sempre, atrás da vida real

Por André L. Guimarães — Editorial de Domingo

Há uma cena que se repete nos escritórios de advocacia, nos balcões dos cartórios e nas salas de audiência do país inteiro. Alguém chega com uma história de vida — complexa, humana, cheia de afeto e contradição — e descobre que o direito, tal como está escrito, não tem uma gaveta certa para guardar aquela história. A lei, nessas horas, olha para a vida e diz: você não está nos meus formulários.

Esta edição virtual de domingo da Sapiências é dedicada a essas histórias. Às famílias que existem de verdade, mas que ainda precisam brigar para existir no papel. Às relações de trabalho que nascem dentro de casa e terminam, às vezes, no balcão da Justiça do Trabalho. E ao direito brasileiro que, a passos lentos — mas reais —, está aprendendo a enxergar tudo isso.

“A família que a lei reconhece raramente é a mesma que nos espera em casa.”

Pai é quem cria — e a Justiça já sabe disso

A primeira reportagem desta edição trata de um tema que o Superior Tribunal de Justiça tem enfrentado com coragem crescente: a filiação socioafetiva — o reconhecimento legal de que pai é quem cria, mãe é quem cuida, e família é quem ama.

Em decisões que merecem ser conhecidas por todo brasileiro, o STJ estabeleceu que avós podem ser reconhecidos como pais, que casais homoafetivos podem registrar filhos sem que o campo “mãe” precise ser preenchido, que um vínculo afetivo pode sobreviver a um exame de DNA negativo — e que esse mesmo vínculo pode ser desfeito quando o afeto, de forma irreversível, deixa de existir.

Não são decisões abstratas. Vieram de histórias reais: crianças criadas por quem não as gerou, adultos que passaram a vida chamando alguém de pai sem jamais ter esse nome num documento, famílias que existiram plenamente na vida e quase inexistiram perante a lei.

Quando o amor tem quatro patas — e precisa de advogado

A segunda reportagem toca num ponto que pode parecer menor — e que, para quem já passou por uma separação com um pet no meio, sabe que não é menor coisa nenhuma. O que acontece com o cachorro? Com o gato que dormia nos pés da cama dos dois? Com o animal que, para muitos casais sem filhos, era o núcleo afetivo daquele lar?

Por décadas, a resposta do direito foi fria e direta: o animal é um bem semovente. Uma propriedade. Divide-se como se divide um sofá ou uma conta bancária. Quem tem o recibo, leva.

Mas a vida, como sempre, foi mais inteligente do que a lei. Juízes de todo o país começaram a perceber o absurdo de tratar um labrador de oito anos — que dormia, brincava, sofria e amava — como se fosse uma linha de crédito a ser partilhada. E a jurisprudência se moveu.

“O juiz não pergunta de quem é o cachorro. Ele pergunta quem cuida — e quem vai cuidar melhor.”

O STJ já sinalizou que animais de companhia são seres sencientes e que, nas disputas de separação, o bem-estar do animal deve orientar a decisão. Guarda compartilhada de pets, regime de visitas, divisão de despesas veterinárias — tudo isso já existe em decisões reais de tribunais brasileiros. O que ainda falta é o que só uma lei pode dar: segurança jurídica, previsibilidade, uniformidade. Hoje, a sorte de um pet em disputa depende muito do estado onde mora, do juiz que pega o processo e da habilidade do advogado contratado. Isso não é justo — nem para os humanos, nem para o animal.

Quando o familiar é também funcionário — e ninguém assinou nada

Há uma terceira história que esta edição conta, e ela acontece dentro de casa — mas seus efeitos chegam longe. O filho que entra na empresa do pai “para aprender o negócio”. A irmã que começa a ajudar nas contas do escritório sem carteira assinada, “porque é da família”. O sobrinho que vira peça essencial da operação sem que ninguém ao certo saiba se ele é empregado ou herdeiro antecipado.

O Brasil tem mais de 90% das suas empresas sob gestão familiar, segundo o IBGE. E uma boa parte dessas empresas carrega, em alguma gaveta, um passivo trabalhista que ninguém quer enxergar — porque falar de direitos dentro de casa ainda parece uma espécie de traição.

Mas os tribunais já responderam a essa questão com clareza: em matéria trabalhista, o sobrenome não apaga os direitos. Onde há trabalho habitual, subordinação e pagamento — mesmo que informal —, há vínculo empregatício. O TST já consolidou esse entendimento. Os TRTs o aplicam com frequência crescente. E quando a relação azeda, o que era “negócio de família” vira processo com tudo que vem junto.

“Família se protege com amor. Negócio se protege com contrato. Quando os dois se misturam, é bom ter os dois.”

A qualidade da nossa legislação familiar: onde estamos?

É impossível falar dessas três reportagens sem falar sobre o estado geral da legislação brasileira em matéria de direito de família — e aqui cabe uma avaliação honesta, com os méritos que existem e as lacunas que não podemos fingir que não existem.

A Constituição de 1988 foi um divisor de águas. Ao garantir igualdade entre filhos de qualquer origem, reconhecer diferentes formas de família e proibir tratamento discriminatório entre cônjuges, ela lançou as bases de um direito de família mais humano. O Código Civil de 2002, apesar das críticas, trouxe avanços importantes. E a legislação esparsa — do ECA à Lei da Guarda Compartilhada, da Lei Maria da Penha à Lei de Alienação Parental — foi preenchendo lacunas ao longo dos anos.

O STJ, por sua vez, tem cumprido um papel que a omissão legislativa acabou lhe transferindo: onde a lei não chega, a jurisprudência avança. As decisões sobre filiação socioafetiva, sobre multiparentalidade, sobre direitos de casais homoafetivos — muito disso veio dos tribunais antes de qualquer lei.

O problema é estrutural. O Brasil legisla de forma reativa — a lei vem depois da crise, depois do escândalo, depois que os tribunais já construíram uma solução improvisada. O resultado é um mosaico jurídico irregular: quem mora em São Paulo tem acesso a decisões mais progressistas; quem mora em um estado menor, com juízes menos atualizados, pode ter um desfecho completamente diferente para a mesma situação de vida.

No campo da filiação socioafetiva, não há lei federal clara e abrangente disciplinando o tema — o Código Civil menciona a possibilidade, mas não a regulamenta. Fica tudo na mão dos juízes. Isso é bom quando o juiz é excelente. É péssimo quando não é.

No campo dos animais de estimação, a situação é ainda mais precária. O Projeto de Lei n.º 1.058/2019, que propõe reconhecer que animais não são coisas, dorme no Congresso há anos. O PL n.º 542/2018, que criaria regras específicas para a guarda de pets em separações, também não foi aprovado. Portugal regulamentou o tema em 2017. A Espanha, em 2021. E o Brasil segue esperando.

No campo do trabalho familiar, a lacuna é igualmente visível. A CLT protege o trabalhador-parente da mesma forma que protege qualquer trabalhador — mas não há uma linha sequer de legislação específica sobre as particularidades dessas relações. Portugal tem normas próprias sobre o tema no seu Código do Trabalho. Aqui, o familiar que trabalhou sem carteira precisa provar na Justiça o que qualquer outro empregado tem presumido por lei.

“Legislar sobre família deveria ser prioridade de qualquer democracia que leve a sério o bem-estar de seus cidadãos — e de todos os que vivem com eles.”

Há também uma crítica mais funda que precisa ser feita: as leis de família brasileiras ainda carregam, em muitos pontos, uma visão de mundo que não corresponde à sociedade que somos. Há uma tendência de normatizar o modelo — família nuclear, heterossexual, filhos biológicos, empresa formal — e tratar todo o resto como exceção a ser tolerada. Essa mentalidade precisa mudar. Não porque seja errada em si, mas porque ignora a realidade de milhões de famílias e trabalhadores brasileiros que merecem proteção jurídica plena, não apenas jurisprudencial.

Uma palavra final

A Sapiências nasceu com uma missão simples e ambiciosa ao mesmo tempo: fazer com que o direito deixe de ser assunto de especialistas e passe a ser ferramenta de cidadania. Porque o direito que você não conhece não te protege.

As reportagens desta edição existem porque acreditamos que toda pessoa tem o direito de entender as regras do jogo — especialmente quando essas regras dizem respeito à coisa mais importante de qualquer vida humana: a família que construímos, os laços que cultivamos, os seres pelos quais somos responsáveis e o trabalho que muitas vezes sustenta tudo isso.

Que este domingo traga reflexão. Que traga também um pouco mais de clareza sobre os seus direitos e os dos seus. E que, quem sabe, inspire algum parlamentar a pegar da gaveta aqueles projetos de lei que o país inteiro está esperando.

A família brasileira — em todas as suas formas — merece uma legislação à altura.

NESTA EDIÇÃO VOCÊ TAMBÉM ENCONTRA

⚖️ Pai é quem cria: como o STJ protege os laços construídos pelo amor
As decisões mais importantes do Superior Tribunal de Justiça sobre filiação socioafetiva — em linguagem que qualquer pessoa entende. Do reconhecimento de avós como pais ao DNA que não apaga o afeto.

🐾 Me separei — e agora, com quem fica meu pet?
Guia completo sobre a guarda de animais de estimação em separações: o que a lei diz, o que os tribunais já decidiram e como agir para proteger o seu companheiro de quatro patas.

👨‍👩‍👦 Trabalhar em família é sempre um negócio de risco — inclusive para a lei
Filho sem carteira, sobrinho sem contrato, irmã que “só ajudava”: quando a relação azeda, o que era negócio de família vira processo trabalhista. Entenda o que a CLT diz e o que os tribunais já decidiram.

📋 Guia técnico: filiação socioafetiva — doutrina e jurisprudência
Para os leitores que atuam na área jurídica ou querem se aprofundar: artigo completo com embasamento doutrinário, legislação e os principais precedentes do STJ sobre o tema.

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