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Saber Perder: a lição que o futebol e o Direito nos ensinam

Por André L. Guimaraes

Quando o placar não conta a história inteira: o que a eleiminação do Brasil e as derrotas nos tribunais têm em comum

Neste domingo, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, o Brasil disse adeus à Copa do Mundo de 2026 diante da Noruega, nas oitavas de final, por 2 a 1. Erling Haaland, autor dos dois gols noruegueses no segundo tempo, confirmou o que já se desenhava havia semanas: uma seleção organizada, fiel ao seu estilo, capaz de sustentar a pressão brasileira e golpear nos momentos certos, principalmente nas falhas do time brasileiro. O Brasil teve suas chances — um pênalti defendido por Ørjan Nyland ainda no primeiro tempo, outras possibilidades desperdiçadas ainda no primeiro tempo, bem como no segundo tempo, ficamos com gol de honra de Neymar já nos acréscimos —, mas não foi suficiente. E é justamente sobre essa insuficiência que vale a pena parar e refletir.

Não há desonra nisso. O time brasileiro fez o que era possível fazer dentro das suas condições na partida: criou situações, teve a bola, insistiu, mesmo que muito aquém do que a torcida espera, até o apito final. Faltou converter, é verdade. Mas dizer que faltou converter não é o mesmo que dizer que faltou entrega, ou vontade, faltou sim jogador que chama a responsabilidade para si, assim como fez Erling Haaland. Nenhum jogador entra em campo pensando em perder. Se a Noruega venceu, foi porque a Noruega foi melhor no jogo — não porque o Brasil tenha sido, por si só, pior. O mérito é de quem venceu, não o demérito de quem perdeu. Essa distinção é sutil, mas essencial: ela separa a crueldade do julgamento precipitado da justiça de reconhecer o adversário.

É curioso — e talvez não seja mera coincidência — que essa mesma lição se repita, quase palavra por palavra, dentro de um processo judicial, e essa comparação se faz, porque somos uma revista jurídica, mesmo que o objetivo seja descomplicar o juridiquês.

Ninguém ajuíza uma ação, ninguém apresenta uma defesa, pensando em perder. Advogados constroem teses com convicção, reúnem provas, articulam argumentos com a certeza de que a razão está do seu lado. E, ainda assim, é comum — talvez seja a regra, não a exceção — que uma das partes saia derrotada. Isso não significa, necessariamente, que sua causa fosse frágil ou sua atuação, incompetente. Significa, muitas vezes, que a parte contrária trouxe elementos mais convincentes, articulou melhor sua narrativa, ou simplesmente teve o julgador ao seu favor naquele conjunto específico de fatos e provas. Da mesma forma que a Noruega foi fiel ao seu estilo de jogo e colheu o resultado, há processos em que a outra parte simplesmente se preparou melhor.

Saber perder, no esporte como no Direito, não é sinônimo de conformismo ou de baixa autoestima profissional. É, antes, um exercício de maturidade: reconhecer que o resultado desfavorável não apaga o mérito do trabalho realizado, nem transforma automaticamente a derrota em erro. Há derrotas que decorrem de más escolhas, sim — mas há também derrotas que decorrem, simplesmente, de o adversário ter sido melhor naquele momento. Confundir as duas coisas é injusto com quem lutou; tratá-las como se fossem sempre a mesma coisa é uma crueldade disfarçada de crítica.

Isso não quer dizer que não se deva analisar o que faltou. Toda derrota — esportiva ou jurídica — merece revisão técnica: o que poderia ter sido diferente, que oportunidades não foram bem aproveitadas, que ajustes cabem para a próxima disputa. A autocrítica tem seu lugar, e é dela que nascem os aprimoramentos. Mas essa análise técnica é bem diferente de um julgamento moral sobre quem perdeu, como se a derrota fosse, em si, prova de fracasso ou incompetência.

Fica, então, o convite: que saibamos, como torcedores e como detentores de direitos, separar o resultado do julgamento sobre o caráter e a competência de quem esteve em campo — ou em juízo. Se fez o que era possível fazer, se houve entrega e houve oportunidade, o desfecho desfavorável pertence, antes de tudo, ao mérito de quem venceu. E reconhecer isso, sem amargura, é talvez a vitória mais difícil — e mais necessária — de todas.

É isso.

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