Existe uma ideia bastante espalhada de que o Poder Judiciário brasileiro continua praticamente o mesmo de vinte anos atrás: grande, caro e lento. É uma impressão compreensível — quem já enfrentou uma ação judicial sabe como a espera pode ser desgastante. Mas os indicadores históricos contam outra história. Eles mostram uma transformação institucional profunda e, justamente por isso, pouco percebida: o Judiciário brasileiro passou a produzir exponencialmente mais sem que seu quadro de pessoal crescesse na mesma proporção.
Os dados da edição comemorativa de 20 anos do Anuário da Justiça Brasil deixam esse fenômeno bem claro.
Nas últimas duas décadas, o número de novos processos distribuídos à Justiça cresceu cerca de 71% — um salto muito acima do crescimento da população brasileira e também do próprio número de magistrados, ambos na casa dos 17%. Mesmo assim, o Judiciário não só absorveu essa demanda extra como ampliou de forma expressiva sua capacidade de resposta.
Em 2009, cerca de 13,7 mil magistrados julgaram 23,7 milhões de processos. Em 2025, pouco mais de 16,1 mil juízes deram conta de 44,5 milhões de ações. Ou seja: o quadro de magistrados cresceu menos de 18%, mas o volume de processos julgados quase dobrou, subindo perto de 88%.
Talvez não haja retrato mais fiel dessa mudança. Não estamos diante de um Poder que simplesmente inchou sua estrutura para dar conta de mais trabalho. O que houve foi o oposto: uma instituição que precisou aprender a produzir muito mais com um crescimento modesto de seus recursos humanos.
Uma comparação internacional ajuda a dimensionar o tamanho desse esforço. Nos Estados Unidos, segundo dados públicos do Administrative Office of the U.S. Courts e de estudos do Federal Judicial Center, o número de juízes federais é relativamente pequeno — pouco mais de 800 magistrados de primeira instância. Ainda que existam milhares de juízes estaduais, o volume de processos por magistrado costuma ficar bem abaixo do que se vê no Brasil, já que a litigiosidade proporcional é menor e boa parte dos conflitos se resolve por acordos, mediação ou outros mecanismos fora dos tribunais.
Na Alemanha, país frequentemente apontado como referência em eficiência judicial, há cerca de 20 mil juízes para uma população bem menor que a brasileira — uma proporção de magistrados por habitante bem mais favorável. Ainda assim, o número médio de processos por juiz é consideravelmente mais baixo, o que reflete um sistema com menos pressão de demanda e recursos humanos mais bem distribuídos [1].
Esse contraste revela algo importante: o Judiciário brasileiro trabalha sob uma carga excepcionalmente pesada quando comparado a sistemas consolidados — o que torna ainda mais notáveis os ganhos de produtividade das últimas décadas.
Os números recentes confirmam a tendência
Em 2025, entraram 40,7 milhões de novos processos. No mesmo período, foram julgadas 44,5 milhões de ações — uma taxa de atendimento de 110% da demanda. Na prática, isso significa que, pela primeira vez em muitos anos, o Judiciário conseguiu reduzir seu estoque de processos de forma consistente, julgando mais do que recebeu.
Esses resultados não caíram do céu. Eles vêm de uma sequência de mudanças institucionais iniciadas, principalmente, depois da criação do Conselho Nacional de Justiça: metas nacionais, indicadores objetivos de desempenho, gestão administrativa mais profissional, expansão do processo eletrônico, padronização de procedimentos, especialização de unidades judiciais, uso crescente de inteligência artificial e automação, além do fortalecimento de uma cultura voltada a resultados. Tudo isso mudou profundamente a forma de administrar a Justiça no país.
Durante muito tempo, o desempenho dos tribunais era medido quase só pela qualidade jurídica das decisões. Hoje, sem deixar essa dimensão de lado, passou-se a acompanhar também produtividade, congestionamento, tempo médio de tramitação, capacidade de atender à demanda e eficiência administrativa. Essa mudança de olhar talvez seja uma das reformas mais silenciosas — e mais relevantes — da administração pública brasileira.
Produtividade não resolve tudo
Ainda há segmentos sobrecarregados, execuções que se arrastam, litigiosidade crescente em certas áreas e desafios de acesso efetivo à Justiça. A sociedade continua, com razão, cobrando mais celeridade e mais previsibilidade nas decisões. Entre outras providências, é urgente racionalizar o uso do sistema de justiça — especialmente investindo na desjudicialização dos conflitos.
Mas reconhecer esses problemas não apaga um fato igualmente verdadeiro: o Judiciário brasileiro de 2026 é institucionalmente muito mais eficiente do que era vinte anos atrás. E esse é, talvez, o aspecto menos discutido de toda essa história.
No imaginário coletivo, costuma-se associar mais produtividade a mais servidores, a uma máquina pública maior. Os dados mostram justamente o contrário: o ganho veio, sobretudo, de mudanças organizacionais, investimento em tecnologia e do esforço diário de magistrados e servidores, que passaram a lidar com uma carga de trabalho muito maior sem um aumento proporcional no quadro funcional.
A experiência brasileira mostra que eficiência institucional não é fazer menos com menos — é fazer muito mais com praticamente a mesma estrutura.
Uma lição que vai além do Judiciário
Essa constatação interessa a muito mais gente do que apenas aos operadores do Direito. Ela mostra que políticas públicas baseadas em planejamento, gestão por indicadores, inovação tecnológica e avaliação constante de desempenho podem gerar resultados concretos até em instituições vistas como complexas e resistentes a mudanças.
Mais do que uma retrospectiva estatística, a edição comemorativa do Anuário da Justiça Brasil registra a trajetória de amadurecimento de uma instituição que precisou responder ao crescimento contínuo da judicialização da vida no país. Os números não autorizam comemorações precipitadas, mas também não deixam espaço para ignorar o tamanho da mudança.
Nos últimos 20 anos, o Judiciário brasileiro não apenas cresceu — tornou-se muito mais produtivo. E essa é, possivelmente, uma das transformações institucionais mais importantes, e menos percebidas, da história recente da administração pública no Brasil.
Resta uma pergunta que os números, sozinhos, não respondem: julgar mais também significa julgar melhor?
Artigo produzido a partir de texto de opinião de Newton Pereira Ramos Neto, desembargador federal no TRF da 1ª Região, doutor em Direito e professor universitário. No site da CONJUR.
Da Redação, atualizado em 22/07/2026, às 00h36














