Eles Viram a Mãe Ser Assassinada: A Dor que Nenhuma Sentença Consegue Apagar
A Justiça pode condenar um feminicida à prisão. Pode reconhecer a crueldade do crime, aplicar agravantes e impor décadas de reclusão. Mas existe algo que nenhuma sentença é capaz de devolver: a presença de uma mãe arrancada da vida dos próprios filhos pela violência.
Foi exatamente essa realidade que marcou um julgamento realizado na Bahia, em que um homem foi condenado a 30 anos de prisão pelo assassinato da companheira. O crime ocorreu dentro da própria residência da família e teve uma circunstância especialmente devastadora: os três filhos do casal presenciaram a violência que tirou a vida da mãe.
À época dos fatos, as crianças tinham apenas 4, 8 e 9 anos de idade.
Mais do que uma condenação criminal, o caso escancara uma das faces mais cruéis da violência doméstica: os danos invisíveis que permanecem muito depois do encerramento do processo judicial.
Quando a violência não termina com a morte da vítima
Durante muito tempo, a sociedade tratou a violência doméstica como um problema restrito ao casal.
Hoje, entretanto, especialistas, órgãos de proteção e o próprio Poder Judiciário reconhecem que os efeitos dessas agressões atingem toda a estrutura familiar, especialmente os filhos.
No caso julgado, os relatos constantes dos autos revelam um histórico de agressões e controle exercido pelo agressor sobre a vítima. Segundo a decisão, a mulher convivia com o acusado desde os 13 anos de idade e teria sido submetida a sucessivos episódios de violência ao longo do relacionamento.
A situação chegou ao extremo quando as ameaças se transformaram em feminicídio.
Mas a tragédia não terminou naquele momento.
Ela continuou na memória das crianças que assistiram à morte da própria mãe.
O trauma que acompanha a infância e a vida adulta
Quando uma criança presencia atos de violência dentro de casa, especialmente contra a própria mãe, as consequências emocionais podem ser profundas e duradouras.
O lar, que deveria representar segurança e proteção, passa a ser associado ao medo, à insegurança e à perda.
Não raramente, vítimas indiretas de feminicídio desenvolvem transtornos emocionais, dificuldades de relacionamento, ansiedade, depressão e outras sequelas psicológicas que podem acompanhá-las por toda a vida.
A dor da perda já seria suficientemente difícil.
Mas perder uma mãe de forma violenta, diante dos próprios olhos, cria marcas que muitas vezes não encontram palavras capazes de descrevê-las.
Quando o Direito encontra a sensibilidade humana
Ao final da sentença, o juiz Teomar Almeida de Oliveira tomou uma atitude incomum.
Após fixar a pena de 30 anos de prisão, o magistrado pediu licença para “quebrar o protocolo” e inseriu um poema de sua própria autoria dedicado aos filhos da vítima.
O texto, intitulado “A Dor da Morte”, foi escrito como uma homenagem às crianças que perderam a mãe de forma tão brutal e que carregarão para sempre as marcas daquele dia.
Mais do que um ato simbólico, a iniciativa revelou que, por trás dos autos processuais, dos depoimentos e das decisões judiciais, existem vidas profundamente impactadas pela violência.
A seguir, os versos que encerraram a sentença:
A Dor da Morte
Por Teomar Almeida
É a dor que machuca sem sangrar
Dói na alma e fere o peito
Não tem palavra que dê jeito
O remédio é chorar
É o fim de todo sujeitoPreparar-se é bem difícil
Esperá-la é precipício
Escapar não diz respeito
Na saúde ou na doença
Seja moço, ou na velhice
Quando chega a sentença
Não adianta crendiceEla vem sem portador
Destroçando o coração
E no peito aquela dor
Só nos resta a oraçãoMorte, morrida ou matada
Por que te fizeram assim?
Com aceitação, ou vingada
Por que atingistes a mim?Morte traiçoeira e malvada
Por que não se afastas de mim?
Já levou quem tanto amava
Preciso sofrer assim?Morte traiçoeira e malvada
Traga de volta pra mim
A vida que me faltava
Antes que seja o meu fimMorte e vida Severina
Rainha das catedrais
Quem te fez com essa sina
Não te viu nos hospitaisVida, nascida e vivida
Princesa dos batistérios
Morte, matada e morrida
Rainha dos necrotériosÓ malvada morte!
Preserve o meu amor
Numa penumbra de sorte
Leve-me, sem tanta dor.
A leitura do poema permite compreender por que o caso ganhou repercussão além dos limites do processo criminal. O magistrado não se limitou a aplicar a lei. Em um gesto raro, procurou registrar, por meio da literatura, a dor daqueles que permaneceram vivos para conviver diariamente com a ausência.
Nenhuma condenação será capaz de devolver uma mãe aos seus filhos. Nenhuma pena, por mais rigorosa que seja, conseguirá apagar a lembrança de uma infância interrompida pela violência.
O feminicídio e a responsabilidade da sociedade
A condenação representa uma resposta necessária do Estado diante de um crime gravíssimo.
Entretanto, casos como esse também servem de alerta para a importância da prevenção da violência doméstica.
O feminicídio raramente surge de forma repentina.
Na maioria das vezes, ele é precedido por sinais, ameaças, agressões psicológicas, controle excessivo, violência física e sucessivas tentativas de silenciamento da vítima.
Reconhecer esses sinais e agir precocemente pode significar a diferença entre a proteção e a tragédia.
Mais do que punir os responsáveis, é necessário fortalecer mecanismos de acolhimento, denúncia e proteção às mulheres que vivem relacionamentos abusivos.
Uma sentença que vai além da prisão
Ao condenar o agressor, a Justiça cumpriu seu papel.
Mas a homenagem feita aos filhos da vítima trouxe uma reflexão que ultrapassa os limites do processo judicial.
Nenhuma pena, por mais severa que seja, conseguirá devolver a infância perdida, os abraços que não acontecerão ou os momentos que jamais serão vividos ao lado da mãe.
A condenação pode representar justiça.
Mas a ausência deixada pelo feminicídio permanece como uma ferida aberta na vida daqueles que ficaram.
Talvez por isso os versos finais da sentença tenham provocado tanta reflexão. Eles lembram que o feminicídio não produz apenas uma vítima. Ele destrói famílias, interrompe histórias e deixa cicatrizes emocionais que podem atravessar gerações.
Ao encerrar sua decisão com poesia, o magistrado transformou um documento jurídico em algo maior: um registro de humanidade diante de uma tragédia que jamais deveria ter acontecido.
Porque, ao final de todo processo, antes dos números, das teses jurídicas e das penas impostas, existem pessoas.
Existem filhos que crescerão sem o abraço da mãe.
Existem lembranças que jamais serão apagadas.
E existe uma dor que, como escreveu o próprio magistrado, machuca sem sangrar, fere o peito e desafia qualquer palavra capaz de lhe dar sentido.
Uma dor que nenhuma sentença consegue apagar.
Da Redação, fonte: Processo: 0005116-71.2008.8.05.0137.











